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Deus é nossa primeira e última morada: nascemos, vivemos em Deus e somos destinados a viver n’Ele na eternidade. Nossa pessoa se torna diariamente casa e moradia do Espírito Santo. Deus habita em nosso coração. Somos sacramentos espirituais em uma casa de carne e osso. Eis a primeira moradia de nossa personalidade.
Nossa mãe se tornou a morada de nosso viver. Afirmamos com gratidão que o útero de nossa mãe foi a primeira moradia por nove meses até o parto para o mundo. Somos gestados no útero materno. Temos a segunda moradia na história de cada vida.
Para o povo judeu moradia se diz “beit” que tem múltiplos significados: casa, lar, família, proteção, identidade e presença amorosa. Uma bela cidade messiânica é “Beit Lechen (Belém)”, que é a casa do pão. Terceira moradia edificada por nossa família em séculos de tradição e fecundidade. Somos filhos de filhos dos filhos, de geração em geração. Aqui está a terceira moradia inserida nas gerações das quais somos herdeiros.
O povo que segue ao Eterno sabe que a glória de Deus (Kabod) faz morada aqui na Terra (Ex 40,35), pois o Senhor escolheu um povo para ser testemunha de seu Amor e de sua justiça. Quarta moradia da fé e pertença espiritual como pessoa e povo de Deus.
O mundo (Casa Comum) é nossa morada (tal qual um útero planetário pleno de água e de vida), pois nele nascemos, vivemos e morremos. A natureza (cosmo, morada, bioma, nicho) merece escuta e tem valor único. Não é algo pragmático ou utilitarista, mas precisamos viver o Planeta com uma presença responsável. Ouvimos dizer e assumimos o equívoco de uma frase mal traduzida do Gênesis: “Crescei e dominai a Terra”, quando na origem o escritor semita escreve: “Crescei e cuidai da terra (cf. Gn 1,27)”. A religião se tornaria uma grande vilã por conta de uma leitura falsificada da Casa Comum, vista deformada como mercadoria que desfigura o lar e o aconchego.
Moradia é o lugar onde se habita. Moradia é demorar-se em um lugar. Moradia é viver com. Moradia é ficar e sentir-se em um ninho que faz bem. Quinta moradia no bioma onde nascemos e vivemos. Os seres humanos construíram casas e moradias de cavernas a edifícios altos. Sempre para cuidar, preservar a vida e ter lugar de repouso e alimento. Há casas sobre lagos, mares, montanhas, rios, planaltos e planícies. Casas de barro, cimento, tijolos, pedras, bambus e cipós. Casas debaixo da terra. Casas no mais alto das montanhas. Casas de peregrinação e casas de acolhimento e cuidados. Algumas são tendas para grupos nômades, outras são moradias para sedentários/as e trabalhadores/as. Algumas são precárias e doentes. Outras são casas sadias e suculentas. Todos/as se realizam usando os materiais que existem no bioma e na geografia onde os/as migrantes se estabelecem. Infelizmente a ganância tirou a moradia de milhões de seres humanos que perambulam pelo mundo em busca de um lar onde possam viver com dignidade. É preciso restabelecer uma nova aliança entre natureza, os seres vivos, o humano e Deus. É preciso enfrentar o “Cogito de René Descartes” que fez grave cisão entre o ser pensante (res cogitans) e o universo onde estamos situados (res extensa). Separou a mente da realidade. O abuso da Terra gera morte e esgotamento e termina por brutalizar e adoecer todas as criaturas.
O tema da criação do mundo exposto por todas as religiões e mitologias carrega algo de revelador e prenhe de salvação. Assumindo a perspectiva da física quântica podemos também reconhecer a Singularidade primitiva (Big Bang) como se fora o cordão umbilical de todo o Cosmo e de todos os planetas, estrelas e energia. Lemos nos textos da Bíblia Hebraica: “No princípio Deus criou”. Deus Criador realiza o ato inaugural do Espaço-Tempo distinguindo-se Ele própria da criação e simultaneamente deixando marcas divinas nas criaturas geradas pelo amor Trinitário. Deus quer a Terra como uma alteridade pra que possa ver como tudo que foi plasmado por suas Mãos é bom e belo. Deus fez surgir o princípio antrópico e a Terra como lugar dialógico desse humano que precisa dela e nela vive. A Terra e os humanos são personagens de uma conversa triangulada com o Criador. Nós somos nômades nesse novo discurso ternário que exige incluir a natureza e os demais seres vivos e até mesmo os inanimados que compõe nossa corporalidade como são os minerais e os átomos primitivos – CHON (carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio). A Terra anda gemendo e sofrendo e não são dores de parto, mas de aniquilação. A humanidade agora sente na carne as moléstias, a dor e as pandemias que se repetem e ferem mais que as malditas guerras. Uma pergunta não cala: “Porque maltratamos tanto o mundo?”. Ou até quando Deus permitirá que brinquemos com a criação (Jean Rostand)?
É preciso nos perguntar sobre a nossa responsabilidade pessoal e civilizatória (Hans Jonas) e entender que há razões religiosas e não religiosas para nossa conversão em seres que cuidam da vida e de toda vida. Religare (conexão) e Relegere (retomar as tradições para que fiquem vivas) são as duas traduções possíveis para a palavra religião. Precisamos manter ambas em ação. Religar o humano a Deus e à natureza. E reler as tradições imemoriais de nossos povos ancestrais (mitos e legendas) para compreender que somos criaturas frágeis. Voltaire afirmou: “Se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo”. Friedrich Nietzsche chega a proclamar que Deus está morto. Quem está morrendo é o humano e os seres vivos ao seu redor. Estamos assistindo à irrupção da idolatria do capital e a morte dos seres da natureza. A idolatria do mercado que quer passar-se por divindade. Sem a natureza como parceira e sem Deus como Criador vamos morrendo aos poucos, transtornados, órfãos e desfigurados. O humano que pensa que tudo controla, se desumaniza para impor esse poder demiúrgico e antinatural. Não atinge o estágio superior que só pode vir pelas conexões de todos os seres na amorização, mas perde os vínculos e os valores em uma luta por supremacia sem vida e sem origem. Alguns pensam ser senhores da vida e donos da morte (caráter tanatológico que expurga o erótico e a pulsão do inconsciente espiritual que alimenta e sustenta cada ser). Dirá o teólogo belga Adolphe Gesché: “Um mergulho na imanência unicamente de nossa razão pode nos levar a uma cegueira, ao esquecimento (ADOLPHE GESCHE, Deus para pensar o cosmo, Paulinas, 2004, p. 8)”. Baruch Spinoza diz que a natureza se explica por si mesma: natura naturans (natureza controla a si mesma). Por essa via também perdemos as conexões da tríade (Deus, Terra e humano) que é o caminho único que possibilita a comunhão e o fluxo vital. Explicar o humano por sua própria natureza é um caminho estreito, pois não assume nossa vocação holística. Precisamos pensar a alteridade da natureza e do humano como mistérios. Se faltar a fascinação pelo outro, teremos tautologias e palavras ocas. Não podemos esquecer a realidade e a materialidade (as paredes de nossa Moradia), e ainda mais compreender que somos onda, energia, e o íntimo dos segredos que são os sonhos, o corpo como espaço espiritual e, sobretudo a memória. Como não recordar a presença ignorada de Deus, como ensina Viktor E. Frankl. Devemos perguntar sobre a natureza como causa de nossa existência de maneira lúcida e não como algo meramente materialista. Sempre pensamos o cosmo e o mundo articulados por um motor imóvel (Aristóteles). Alguns pensam a Terra e o universo movidos por um deus relojoeiro. Alguém que dá corda e se isenta da obra criada. Os povos semitas pensavam o Criador como oleiro, como um artista-artesão, que tem amor especial por cada uma de suas ovelhas. A filosofia dirá que é feliz quem conhece as causas das coisas. Aqui recordo o filme Alice e as lições do Tempo. Quem quer penetrar a causa sempre anda em busca do controle do relógio primitivo e isso o conduz à ciência tecnicista. Se não estabelecermos Deus como Criador e como Alteridade pessoal perdemo-nos nas engrenagens e sucumbimos no deus-relojoeiro de Leibniz ou voltamos ao “God-of-the-gaps” (deus das lacunas) do pensamento de Francis Bacon, que queria vencer os ídolos, mas acabou por criar outros. Prefiro a obra de Herbert Marcuse: “Homem unidimensiona”, que nos alertava para os limites da “teckné”. Ou a profecia de Hans Jonas ao criticar a ética utópica de Ernst Bloch e a ética do desespero de Günther Anders. “Deus não é o fabricante de um relógio, e, sim, o iniciador de uma aventura (Adolphe Gesché, Deus para pensar o cosmo, Paulinas, 2004, p. 67)”. Martin Heidegger diz que esquecemos que o Ser se manifesta também no cosmo. O humano se manifesta no cosmos e não só em uma ontologia imanente. Está na hora de entender o mundo, já que o transformamos constantemente. Karl Marx e Sigmund Freud pagaram um caro pedágio ao submeterem-se à antropologia mecanicista e positivista. Crer faz bem ao humano. Deus é parceiro da vida e nos quer co-criadores da vida e da esperança.
O mundo é nossa morada, nossa casa que tem algo a nos ensinar. A natureza conversa conosco e é preciso aprender, pois não somos únicos ou solitários. Somos companheiros de criação, gerados pela Palavra. No princípio existia o Logos e o Verbo fez tudo. Fez a Palavra que dá nome a tudo e todos. Essa é a maneira de nos situar no espaço (Merleau-Ponty). Isso nos preserva da alucinação. Não somos somente pessoas de quatro dimensões (temporalizados), mas estamos/somos no espaço, vivemos em um locus vitae (lugar vital da natureza) como a real possibilidade epistêmica de ser e amar.
É preciso recordar dos ancestrais, refazer o cordão umbilical de nossa mãe e o vínculo com a Mãe-Terra. Questionar-se pelo lugar e pela natureza. Onde estou? Onde estão meus irmãos? Dormirão em casas ou nas ruas ao relento? De onde vim? Qual é o meu lugar? Que sentido dou ao meu existir? Para onde vou? Com quem caminho na aventura do viver. Não colocamos questões só sobre o começo ou o fim. A importante questão hoje é a do “ubi”, o lugar, a localização, a ubiquidade e a morada. O humano deve situar-se, assumir-se no espaço onde ele se reconhece, cuida e se conecte com o Todo, com as pessoas e os seres aos que estamos interligados. Thomas Mann escreve no livro: A Montanha mágica: “O espaço que, girando e fugindo, roja-se de permeio entre ele e seu lugar de origem revela forças que se costuma julgar privilégio do tempo; produz de hora em hora novas metamorfoses íntimas, muito parecidas com aquelas que o tempo origina, mas em certo sentido, mais intensas ainda (Thomas Mann, A Montanha Mágica, Rio de Janeiro, Companhia das Letras, 2016, p. 14)”. O processo nos conduz, mas muitas vezes é o espaço, a moradia, o lugar, a natureza aquela que nos envolve e que, de fato, nos decifra como seres de memórias e corpos situados.
Que possamos agradecer a morada primeira (em Deus e no útero de nossa mãe) e qual será a nossa morada definitiva. Assim possamos ajudar efetivamente para que todos e todas tenham uma moradia digna. A missão quaresmal de primeira grandeza de 2026 é a luta por moradia para todos. Deus nos ajude nessa tarefa da bela Campanha da Fraternidade. Possamos agir e orar dizendo: “Deus, nosso Pai, em Jesus, vosso Filho, viestes morar entre nós e nos ensinastes o valor da dignidade humana. Dai-nos a graça da conversão, para ajudarmos a construir uma sociedade mais justa e fraterna, com terra, teto e trabalho para todas as pessoas, a fim de, um dia, habitarmos convosco a casa do Céu. Amém (oração do texto base da CF2026)”.

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