Imagem: ArtPop@Wal
O episódio envolvendo o cachorro Orelha me causou profunda impressão e certo desconforto. Não apenas pelo fato em si, que é grave e condenável, mas sobretudo pela forma como as grandes mídias exploraram a notícia, transformando um acontecimento doloroso — que certamente carrega questões mais profundas a serem enfrentadas — em mercadoria emocional para alimentar o ibope e as taxas de audiência.
Sou o primeiro a afirmar a necessidade de cuidar daquilo que o Papa Francisco chamou, com genialidade, de ecologia integral. Somos parte da casa comum, onde todos os seres vivos, em suas diferentes peculiaridades, têm direito à existência, ao respeito e à vida. Não podemos, de modo algum, compactuar com qualquer forma de violência contra os seres vivos.
No entanto, é preciso lembrar que toda vez que desrespeitamos a natureza e a mãe terra — poluindo as águas, envenenando o solo e o ar com agrotóxicos — também cometemos violência. Praticamos crimes que podem ser iguais ou até mais graves do que aquele que vitimou o cachorro Orelha. A indignação seletiva revela muito sobre nossas prioridades.
Há ainda uma constatação incômoda que expõe a superficialidade e a banalidade de nossa percepção dos fatos. Pessoas em situação de rua frequentemente mantêm consigo um grupo de cães bem cuidados, muitas vezes até gordos. Isso acontece porque, não raro, a sociedade olha com mais compaixão para os animais do que para os próprios seres humanos. Generosas ofertas destinadas aos cães acabam garantindo também a alimentação e a sobrevivência de seus donos — que, de outra forma, talvez passassem fome. Esse contraste deveria nos fazer refletir.
Outro elemento que não pode ser ignorado é a espécie de “caça às bruxas” que se instaurou contra alguns adolescentes apontados como responsáveis pela agressão — atitude detestável, sem dúvida. Mas é preciso ir além da indignação imediata e perceber que esse episódio também é sintoma de um mal-estar coletivo. Um mal-estar que se traduz em violência, ódio, suspeita permanente e na tendência de enxergar o outro como ameaça ou inimigo. Esse ambiente é alimentado justamente pelo sensacionalismo e pelo justicialismo, que assumem formas diversas e, por vezes, inesperadas — como vimos nesse caso amplamente divulgado.
A verdade que não podemos calar é que esse ato de violência contra um animal expressa uma violência difusa que atravessa nossa sociedade. O próprio Estado, suas instituições e a cultura social dominante muitas vezes reproduzem, legitimam ou institucionalizam práticas violentas. Pena que isso raramente seja dito — ou, pior ainda, que seja justificado como algo necessário e insubstituível.
Desde o início de seu pontificado, o Papa Leão XIV tem repetido, como um refrão, a saudação da paz acompanhada do convite ao desarmamento — um desarmamento que não é apenas físico, mas existencial. Trata-se de assumir uma postura desarmada diante da vida, que se concretiza na escuta atenta, na linguagem não violenta, na mudança de olhar. Em outras palavras, na prática da justiça restaurativa.
Isso exige transformação do coração — aquilo que, no âmbito religioso, chamamos de conversão, de metanoia: uma mudança de direção na vida. Só assim poderemos nos aproximar do que chamamos de justiça de Deus, que é misericórdia, que é o coração pobre voltado aos pobres.
Oxalá cheguemos lá.

Este artigo foi editorial da Rede de Notícias da Amazônia em 27 de fevereiro de 2026.

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