Pesquisa de mestrado resultou na criação de um manual que orienta jornalistas e comunicadores a adotarem uma abordagem pautada nos direitos humanos e na ciência
Por Cláudia Pereira | Cepast-CNBB
O Brasil tem avançado na ampliação do acesso ao tratamento e aos benefícios para pessoas que vivem com HIV. O país tem realizado diversas ações, especialmente no combate à desinformação e à discriminação; porém, os espaços oficiais de notícias ainda estigmatizam a pauta.
Muito além de um trabalho acadêmico, uma nova cartilha aborda um tema urgente para a saúde pública. Desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade de Brasília (UnB), a pesquisa revela um cenário preocupante na mídia brasileira: mais da metade das notícias sobre HIV e Aids (53,8%) ainda utiliza linguagem estigmatizante. A análise contemplou 1.945 matérias publicadas entre 2020 e 2024 em portais digitais de notícias, resultando na criação do “Pequeno Manual de Comunicação Não Estigmatizante sobre HIV e Aids”.
O guia é de autoria de Henrique Cavalheiro, mestre pelo programa da UnB e teve orientação das professoras Ximena Bermúdez e Janara Sousa. Surge como uma ferramenta para alinhar a comunicação jornalística e publicitária aos direitos humanos e aos avanços da ciência. Dados do levantamento aponta que, o estigma é frequentemente reforçado pelo enquadramento do tema em editorias policiais (30%) ou obituários (12%), associando o vírus ao crime ou à morte.
O atual modelo de cobertura midiática sobre o HIV/Aids muitas vezes adota critérios de noticiabilidade que reforçam o preconceito ao associar o vírus a situações de marginalidade e tragédia.
“Quando essas histórias são colocadas principalmente em editorias policiais, reforça a associação entre o vírus e o crime, criando mais um marcador de discriminação. Isso é o estigma em funcionamento: desumanizar e apresentar essas pessoas como ameaça à sociedade. Esse tipo de narrativa impacta diretamente a vida real, porque o medo do julgamento e da exposição pode afastar muitas pessoas da testagem e do tratamento”, afirma Henrique Cavalheiro.
O poder das palavras e das vozes: a pauta é a Vida
O manual aponta de forma contundente que a escolha terminológica impacta diretamente na percepção social. Matérias que utilizam o termo recomendado — “pessoa vivendo com HIV” — foram classificadas como não estigmatizantes em 83% dos casos. Em contrapartida, o uso da palavra “portador” reforçou preconceitos em 74% das publicações analisadas. Além do vocabulário, o protagonismo das fontes é decisivo para uma cobertura humanizada:
- Escuta ativa: reportagens que deram voz a pessoas que vivem com HIV apresentaram abordagens mais informativas em 85% das vezes.
- Falar “sobre” vs. Falar “com”: quando terceiros falam pelas pessoas com HIV, o índice de estigma nas matérias sobe para 82%.
Para uma redação jornalística ética e precisa, o manual orienta a substituição de termos pejorativos por uma linguagem que priorize a dignidade humana. O termo “portador” deve ser abandonado por ser considerado desumanizante, dando lugar à expressão “pessoa vivendo com HIV”, que coloca o sujeito em primeiro lugar. Da mesma forma, expressões como “contaminado” ou “infectado” devem ser trocadas por “pessoa HIV positiva”.
O guia também recomenda evitar metáforas de guerra, como “luta contra a Aids”, pois a pessoa não está em uma batalha constante, mas vive uma condição de saúde; o ideal é referir-se à “adesão ao tratamento”. Termos como “aidético” ou “vítima” são desaconselhados por serem sorofóbicos e desempoderadores.
Na construção da notícia, é fundamental tratar o HIV como uma pauta de saúde e cidadania. Além disso, é importante divulgar o conceito científico que comprova que pessoas em tratamento com carga viral indetectável não transmitem o vírus por via sexual (I = I). Por fim, o comunicador deve priorizar o protagonismo, buscando sempre ouvir as vozes de quem vive com o vírus para garantir uma abordagem humana e informativa.
O guia está disponível na biblioteca digital da Cepast e pode ser utilizado tanto para consulta orientativa quanto como material educativo. Acesse AQUI.
