Padres Mardonio e Edinho refletiram o Concílio Vaticano II, a Teologia da Libertação e os desafios das pastorais sociais no contexto atual
Por Henrique Cavalheiro/Comunicação-CPP
Na tarde do segundo dia da Assembleia Nacional do Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras (CPP), nesta quarta-feira (4), as/os participantes acompanharam uma análise de conjuntura eclesial, com o objetivo de refletir coletivamente sobre o lugar da pastoral no contexto da Igreja no Brasil, na América Latina e no âmbito universal.
O momento propôs uma retomada histórica e crítica do Concílio Vaticano II e de seu projeto de renovação da Igreja, que abriu caminhos para uma atuação pastoral comprometida com a realidade dos povos e possibilitou, entre outros frutos, o surgimento do CPP em 1968. A reflexão também resgatou o jeito de ser Igreja inspirado na Teologia da Libertação, fonte que sustenta a missão profética da pastoral na construção de uma presença libertadora, transformadora e enraizada nos territórios pesqueiros.
Para contribuir com o debate, participaram o padre Mardonio Brito, agente de pastoral do CPP Maranhão e sacerdote da Diocese de Brejo (MA), e o padre Edinho Thomassim, assessor da Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (Cepast-CNBB). Ambos apresentaram elementos para a leitura da realidade eclesial atual, abordando temas como os desafios impostos pelo avanço do conservadorismo, a contribuição do pontificado do papa Francisco para o fortalecimento da sinodalidade e os caminhos futuros para a continuidade e o fortalecimento das pastorais sociais.
A análise reforçou a importância de uma Igreja em saída, comprometida com os pobres, com a justiça socioambiental e com a defesa da vida nos territórios, em sintonia com a missão histórica do CPP junto aos povos das águas.
“nós precisamos estar conscientes dessa missão nossa de ser sinal da esperança”

A urgência de uma fé comprometida com a realidade
Ao refletir sobre os desafios da Igreja nos territórios, o padre Mardonio destacou que a realidade eclesial atual também se expressa nas comunidades pesqueiras, marcada por tensões, resistências e distanciamentos. Segundo ele, diferentes expressões religiosas têm se afastado da vivência concreta do povo, o que dificulta o trabalho das pastorais sociais e o fortalecimento de uma fé comprometida com a realidade. Em sua fala, afirmou que “essa igreja da mídia. Essa igreja, essa espiritualidade muitas vezes não encarnada, talvez sejam os desafios de regresso que nós encontramos lá no território”, ressaltando que essa dinâmica tem provocado indiferença e resistência à ação pastoral. Para o sacerdote, há uma visão crescente de que o trabalho social não faz parte da vida de fé, o que contraria o espírito do Concílio Vaticano II e fragiliza a missão profética da Igreja junto aos mais pobres.
Brito também chamou atenção para os impactos desse distanciamento na vida das comunidades, especialmente entre jovens e famílias, apontando o crescimento de uma espiritualidade ritualista e desconectada da realidade humana. Para ele, essa lógica tem produzido sofrimento, confusão emocional e perda de sentido comunitário. “O esquecimento da dimensão social da fé, isso é muito triste, porque mexe com a cabeça do nosso povo”, afirmou, ao relatar situações vivenciadas nos territórios, onde cresce a procura por apoio pastoral diante de crises pessoais e coletivas. Apesar das dificuldades, Mardonio ressaltou a presença das crianças e da juventude em experiências comunitárias como sinal de esperança e reforçou a necessidade de assumir, com coragem, a missão de ser sinal de vida, fé e compromisso nos territórios. Segundo ele, “nós precisamos estar conscientes dessa missão nossa de ser sinal da esperança” junto às comunidades que, muitas vezes, já perderam a confiança no futuro.

Sinodalidade, escuta e continuidade da missão pastoral
Ao refletir sobre a conjuntura eclesial, Padre Edinho destacou que o atual momento da Igreja é marcado por transformações profundas nas estruturas e por um estilo pastoral que privilegia processos, participação e escuta. Segundo ele, esse caminho vem sendo construído a partir das contribuições do Papa Francisco e encontra continuidade no atual pontificado, que reforça uma visão de Igreja comprometida com o discernimento coletivo e com a valorização da participação. Para o assessor, a sinodalidade não representa uma ruptura, mas expressa práticas já vividas em muitas experiências pastorais, especialmente na América Latina, como decisões colegiadas, pastoral de conjunto e conselhos comunitários, ainda que esse modelo enfrente resistências em diferentes contextos e conferências episcopais.
Padre Edinho afirmou que a metodologia sinodal exige não apenas o direito à fala, mas, sobretudo, o direito à escuta, compreendida como responsabilidade pastoral. Para ele, esse discernimento se constrói a partir de uma Igreja que se deixa afetar pela realidade concreta do povo e não negocia sua dimensão missionária e profética. “Essa metodologia é o direito de escuta, direito de escutar. Não é só o direito de falar”, afirmou. Nesse sentido, alertou para os riscos de uma espiritualidade desvinculada da vida, que pode enfraquecer o compromisso social da fé e esvaziar a missão pastoral nos territórios, especialmente diante de narrativas que deslegitimam a atuação das pastorais sociais.
Ao refletir sobre os desafios da missão profética da Igreja no contexto atual, Thomassim ressaltou que a atuação pastoral exige firmeza na defesa das causas do povo, sem perder o horizonte do cuidado, do discernimento e da não violência, lembrando que a profecia não se constrói pela dureza, mas pela fidelidade à vida e à dignidade humana.
A profecia não é violenta, as causas geram violência e às vezes é preciso uma certa intensidade na defesa, mas não podemos ser brutos, endurecer não pode jamais, eu acho que esse é o elemento”, disse.
Ao abordar os sinais de esperança e os desafios futuros, o assessor ressaltou a importância de fortalecer uma Igreja enraizada nos territórios, comprometida com a ecologia integral, com a opção preferencial pelos pobres e com a defesa da vida. Destacou que experiências vividas na Amazônia e em outros territórios revelam caminhos possíveis para uma pastoral mais encarnada e transformadora. Para ele, é fundamental repensar práticas pastorais, formação, comunicação e estruturas, superando modelos excessivamente burocráticos e apostando em processos humanizados, espirituais e proféticos.
O assessor destacou a necessidade de reconstruir vínculos comunitários rompidos pela opressão conservadora. Nesse sentido, afirmou:
“Trazer novamente a comunidade àqueles e aquelas que foram tirados, excluídos pelo discurso da antiteologia da libertação. Nós temos que retirar a agonia de tantos companheiros e companheiras nossos que foram expulsos de suas comunidades por serem militantes sociais”, finalizou Padre Edinho.
