O que se vê nas ruas, mesmo em pleno tempo de Carnaval, não pode ser reduzido apenas à imagem da festa, da alegria ou do entretenimento. O que emerge, com força crescente, é a expressão de um mal-estar social profundo, marcado por inquietação, desconfiança e, em certos casos, por um sentimento difuso de negativismo e desespero coletivo diante das grandes e graves questões que atravessam o presente da história.
Essa constatação não deve ser confundida com um juízo de valor sobre o Carnaval em si. Não se trata de uma condenação ética ou moral dessa manifestação cultural, tampouco de uma negação do seu valor simbólico, histórico e popular. Ao contrário: é justamente por reconhecer sua importância que o Carnaval se torna um espaço privilegiado de leitura da realidade social.
Eventos populares dessa magnitude funcionam como verdadeiros termômetros do corpo social. Eles revelam aquilo que a rotina cotidiana, com sua lógica fria, acelerada e mecanicista, costuma ocultar. Nas ruas, nos corpos em movimento, nos cantos, nas fantasias e até nos excessos, afloram necessidades humanas reprimidas, desejos de encontro e sinais de uma sociedade que, no dia a dia, exige máscaras permanentes para sobreviver em contextos marcados pelo individualismo, pelo narcisismo e por relações cada vez mais artificiais.
Por isso, o Carnaval não pode ser compreendido apenas pela lente do mercado ou da espetacularização promovida pela grande mídia. Para além da vertente comercial, a participação por vezes inconformada e até transgressora das multidões revela algo essencial: a urgência de espaços de lazer que sejam também espaços de cultura, convivência e presença real. Em um mundo frenético, tecnicista e mediado quase exclusivamente por telas e redes sociais, a festa popular expressa o desejo de recuperar o estar juntos, o corpo, o ritmo, a rua e o vínculo humano.
Mesmo em outras culturas ocidentais, onde o Carnaval assume formas distintas, ele cumpre uma função semelhante. Trata-se de um sinal que interpela a chamada casa comum, apontando para a necessidade de uma ecologia integral — ou, em termos mais profundos, de uma verdadeira oikologia: uma compreensão da vida como relação, cuidado e celebração. Entre os povos originários, essa sabedoria se expressa na capacidade de viver a vida como festa, mesmo quando os desafios do cotidiano parecem obscurecer o caminho e os sonhos.
Diante disso, o Carnaval deixa de ser apenas um evento do calendário e se torna uma provocação. Ele nos pergunta que tipo de sociedade estamos construindo, que espaços oferecemos para o encontro humano e que sentido atribuímos à vida em comum. Oxalá saibamos escutar a mensagem que essa festa popular insiste em nos comunicar: a de que, mesmo em meio ao mal-estar, a vida continua a pedir expressão, vínculo e esperança.

 

Este artigo foi editorial da Rede de Notícias da Amazônia em  10 de fevereiro de 2026.

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