A Campanha da Fraternidade deste ano nos provoca a olhar com mais atenção para uma realidade que cresce silenciosamente em nossas cidades: a falta de moradia. Mais do que um problema urbano ou econômico, trata-se de uma questão profundamente humana e espiritual, que interpela a consciência social e cristã. O convite que nos é feito não se limita a refletir, mas nos chama a uma verdadeira conversão, capaz de transformar nossa visão de sociedade e nossas práticas concretas de convivência.
A ausência de moradia digna revela um sistema que, muitas vezes, organiza a vida social a partir da exclusão. Surgem novos guetos, pessoas são rotuladas e estigmatizadas, e suas vidas acabam marcadas por feridas difíceis de cicatrizar. Alimenta-se, assim, uma lógica de fundamentalismo social e cultural que, em versões modernas, retoma antigas ideias de pureza e seleção. O resultado é a continuidade silenciosa da exclusão dos mais frágeis e vulneráveis.
Não é difícil perceber esse processo no crescimento visível das periferias existenciais e nas políticas de “higienização urbana” que buscam esconder a pobreza em vez de enfrentá-la. Muitas vezes, tais práticas são sustentadas por uma lógica de mercantilização da cidade, na qual o espaço urbano é tratado como mercadoria e submetido à especulação fundiária e aos interesses do mercado.
O que mais inquieta, no entanto, é reconhecer que atitudes semelhantes podem também infiltrar-se nas próprias comunidades cristãs. Não raramente se levantam barreiras — físicas, sociais ou culturais — que acabam afastando justamente aqueles que mais necessitam de acolhida. Pessoas são julgadas e rejeitadas por sua condição social, por sua cor, por sua história, por questão de gênero ou por escolhas de vida que fogem aos padrões dominantes. Assim, em nome de justificativas legalistas, corre-se o risco de negar aquilo que constitui o coração do Evangelho: a misericórdia e o acolhimento.
Por isso, falar de moradia não significa apenas pensar na construção de casas. Trata-se de refletir sobre o tipo de sociedade que desejamos construir. Uma sociedade verdadeiramente humana é aquela capaz de oferecer espaços de acolhida, confiança e dignidade para todos. Lugares onde as pessoas não sejam avaliadas pelas aparências nem aprisionadas por julgamentos superficiais, mas reconhecidas em sua dignidade.
Nesse sentido, a atitude de Jesus permanece profundamente provocadora. Ele rompeu barreiras sociais, religiosas e morais para acolher aqueles que eram excluídos. Não julgava, não condenava, não se preocupava com números ou estatísticas. Como recordava o Cardeal Van Thuân, esses poderiam ser chamados de seus “defeitos”: acolher a todos e oferecer sempre uma nova oportunidade de vida.
Também Maria, com a sensibilidade própria das mães, nos ensina o sentido mais profundo da verdadeira moradia. Ela nos recorda que o lar se constrói com escuta, silêncio, oração e cuidado. Constrói-se com mãos que trabalham e com passos que caminham ao encontro de quem precisa de pão, dignidade, afeto e lugar para viver. Nela, mística e profecia se unem na prática cotidiana da ternura e da justiça.
O Deus que Maria acolhe e que vem habitar entre nós continua presente nas calçadas de nossas cidades, nas portas de nossas casas e também de nossas igrejas. Ele se revela nos rostos daqueles que passam fome, que são rejeitados por sua condição social, por sua cor ou por sua aparência, e que muitas vezes se tornam invisíveis diante de uma sociedade marcada pela seletividade e pela indiferença.
Por isso, falar de fraternidade e moradia é muito mais do que promover uma campanha anual. É assumir uma escolha de vida. É optar por um amor capaz de abaixar-se para lavar os pés de uma humanidade ferida pelas estruturas de exclusão.
O sonho evangélico da civilização do amor permanece como horizonte e desafio. Construir uma verdadeira moradia para todos significa criar uma sociedade onde ninguém seja descartado, onde cada pessoa encontre não apenas um teto, mas um espaço de dignidade, de reconhecimento e de fraternidade. Boa noite.
Este artigo foi editorial da Rede de Notícias da Amazônia em 05 de março de 2026.