Marcha Mundial pelo Clima, mais de 70 mil vozes nas ruas de Belém. Foto: Cláudia Pereira

Filme expõe a divisão entre a agenda do mercado e a realidade dos povos e comunidades tradicionais, destacando a luta por justiça climática e reforma agrária

 

Por Cláudia Pereira | Cepast-CNBB

 

Enquanto líderes globais e autoridades se reuniam em Belém para a COP30, em novembro de 2025, uma barreira invisível dividia o debate ambiental no coração da Amazônia. De um lado, a “COP do Capital”; do outro, os guardiões da floresta que, apesar de protagonistas da preservação, enfrentaram restrições para acessar os espaços oficiais de discussão. Este contraste é o fio condutor do documentário “O Grito dos Povos na COP30”, uma produção da Comissão Pastoral da Terra (CPT) que estreia no canal da organização no YouTube nesta terça-feira (03), às 10h.
Com o lema “Não existe justiça climática sem justiça social”, o filme de aproximadamente  30 minutos documenta a resistência de povos das florestas, do campo, das águas e das cidades contra as falsas soluções do mercado para a crise climática. O documentário relata episódios de tensão envolvendo lideranças do povo Munduruku, que foram impedidas de acessar espaços da agenda oficial com seus instrumentos ancestrais. “A gente é barrada de entrar […] a gente não está aqui brincando”, desabafou o Cacique Manuel Munduruku.
Para os movimentos sociais, o episódio simbolizou a distância entre o discurso diplomático e a realidade dos territórios. Enquanto o mundo buscava acordos financeiros, vozes como a de Larissa Rodrigues alertavam para a urgência da reforma agrária e para problemas imediatos como a fome e a contaminação por agrotóxicos e mercúrio, que afetam famílias amazônicas e camponesas que enfrentam o avanço das commodities.

 

Povos Munduruku, em manifestação na zona Azul da COP30. Foto: Cláudia Pereira

Denúncias, Tribunal do Ecogenocídio e a Marcha das 70 mil vozes

Um dos pontos centrais da narrativa é o questionamento sobre a transição energética. O filme apresenta denúncias sobre o impacto da extração de minérios que, embora rotulados como limpos, continuam degradando territórios tradicionais. “Não adianta eu defender um modelo que amplie as eólicas […] sendo que isso vai degradar diversos outros territórios para explorar minério”, aponta o agente de pastoral Ítalo Kant. Além da mineração, a obra expõe a pressão de empresas sobre comunidades para a negociação de créditos de carbono, uma nova forma de mercantilização da natureza.
O documentário também registra momentos de mobilização popular, como o Tribunal Popular do Ecogenocídio, realizado no Ministério Público Federal, no Pará. O tribunal julgou 21 casos emblemáticos de violações, incluindo o massacre de Pau D’Arco e a contaminação por agrotóxicos, unindo relatos de comunidades da América Latina, África e Ásia.
O encerramento destaca a Marcha Mundial pelo Clima, que ocupou as ruas de Belém com mais de 70 mil pessoas. Para os realizadores, a mobilização deixou um recado claro: a mudança real não virá de cima para baixo, mas da garantia dos territórios e do fortalecimento da agricultura familiar.

 

Ficha Técnica:

  • Direção e Edição: Cláudia Pereira
  • Realização: Comissão Pastoral da Terra (CPT)
  • Apoio: Misereor, Brot für die Welt, CCFD-Terre Solidaire e Ford Foundation.