Possui graduação em Filosofia pela Universidade de Caxias do Sul (2007) e graduação em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e pela Pontificia Università Lateranense de Roma (2012). Atua como sacerdote na Paróquia de São Francisco de Paula. Auxilia nos cursos de Teologia da Diocese de Caxias do Sul, nas áreas de Teologia Sistemática e História da Igreja.

Outra vez uma mulher. Na visão cristã Deus entra na história humana a partir de uma mulher. Melhor dizendo, através de uma menina, pois Maria contava com no máximo 14 anos quando engravidou. Lucas relata que o sacerdote Zacarias, homem da religião, do culto oficial, quando recebe a visita do anjo lhe comunicando que sua esposa Isabel, idosa e estéril, iria engravidar, mostrou-se reticente e incrédulo (Lc 1,18). Maria, essa menina, diante do anúncio do anjo que lhe comunicou que seria a mãe do Filho de Deus apenas disse: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). Deus quis submeter-se à liberdade de Maria, que profundamente corajosa, gerou o Verbo em sua humanidade. Uma mulher foi a arca da Nova Aliança.

 

Quando nas bodas de Caná, símbolo da nova união matrimonial entre Deus e toda a humanidade realizada em Jesus, falta vinho, Maria intervém. Maria, na visão joanina é a imagem do Israel fiel ao projeto de Deus, que aguardava o Messias. É ela que dirá: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5). O vinho era o sinal da alegria, que não existia na antiga aliança entre Deus e Israel, pois esta foi celebrada sobre a lei, não sobre o amor. Na Nova Aliança jorra vinho, jorra a alegria de um casamento celebrado no amor. Maria sabe disso. Uma mulher aponta para a Nova Aliança.

 

Aos pés da cruz de Jesus permaneceram de pé três mulheres e o misterioso discípulo que Jesus amava (Jo 19,25). Onde foram os demais? Onde foram Pedro e os demais apóstolos? Fugiram. Se esconderam. Tiveram medo. As mulheres, porém, estavam ali, diante do Crucificado, de pé. Na madrugada do domingo foi a Maria Madalena que Jesus se manifestou ressuscitado e fez dela apóstola dos Apóstolos, pois a ela confiou a missão de anunciá-lo vivo aos demais. Uma mulher testemunha o triunfo da Nova Aliança.

 

As mulheres dentro da comunidade cristã se destacaram pela coragem e fidelidade ao Mestre, muitas vezes enfrentando os homens de poder das estruturas eclesiásticas. Poucos dias atrás novamente uma mulher se fez apóstola dos apóstolos. Diante do homem que ocupa o cargo mais poderoso do mundo, o presidente dos Estados Unidos, a Bispa anglicana de Washington, Mariann Edgar Budde, com ternura e firmeza exortou Donald Trump à misericórdia. Trump, como se sabe é um extremista de direita, alguém que ameaça constantemente os direitos humanos fundamentais. Extremante antagônico é contra o aborto, mas deseja repristinar a pena capital em casos federais.

 

A Bispa colocou-se firmemente em defesa da comunidade LGBTQI+ e dos imigrantes ilegais, dois grupos na mira do novo governo de Trump. Com a firmeza de uma mulher ela pediu misericórdia pelas pessoas dos EUA que, nas suas palavras, “estão assustadas”. O presidente a fitava visivelmente incomodado.

 

Quantos líderes religiosos teriam essa coragem? Ou melhor, quantos bispos teriam essa coragem? Não consigo visualizar um bispo católico norte-americano usando as mesmas palavras que a Reverenda. Mariann. Por prudência? Não, por falta de coragem. Novamente uma mulher fez ressoar aos ouvidos dos demais apóstolos o anúncio do Evangelho de Jesus na sua integridade. Agora entendo que foi por essa coragem que Deus escolheu a elas e não a nós.

 

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