O que mais impressiona no tempo que vivemos é o contraste cada vez mais evidente entre a prepotência de alguns e a fragilidade da maioria. Uma maioria que vive angustiada, cansada e revoltada com o status quo, tomada por um sentimento difuso de impotência diante da violência cotidiana. Esse cenário alimenta fundamentalismos e atitudes de intolerância que, não raramente, legitimam e até aplaudem um sistema de punitivismo levado ao extremo. Em nome da ordem e da segurança, multiplicam-se medidas paliativas, tomadas sob o impulso do momento, incapazes de tocar o núcleo do problema. Assim, deixa-se de enfrentar as causas profundas de um mal-estar social que se retroalimenta e desemboca em verdadeiras expressões de barbárie.
As grandes narrativas mediáticas — como os movimentos geopolíticos envolvendo a Groenlândia, as tensões entre Estados Unidos, União Europeia e OTAN, ou ainda os conflitos em Gaza e na Ucrânia — ocupam o centro do noticiário global. Esses acontecimentos, sem dúvida relevantes no tabuleiro geoeconômico e político mundial, acabam por relativizar ou mesmo obscurecer um mal-estar social difuso e persistente. Um mal-estar alimentado por desigualdades crescentes, que abrem espaço para uma cultura da suspeita, da desconfiança e da hostilidade em relação ao diferente.
Nesse contexto, migrantes e refugiados tornam-se alvos preferenciais. Sobre eles recai a raiva social acumulada, por meio de generalizações perigosas que os transformam em monstros e bodes expiatórios, como se fossem a causa primeira de todos os males. Trata-se de uma estratégia antiga: deslocar a responsabilidade estrutural para os mais frágeis, convertendo vítimas em culpados.
O que causa perplexidade é a aparente amnésia do mundo ocidental diante de sua própria história recente. Esquece-se dos grandes fluxos migratórios que marcaram o século XX e das violências sofridas por milhões de pessoas em busca de sobrevivência e dignidade. São as mesmas violências — muitas vezes agravadas — que hoje atingem aqueles que deixam sua terra, seus vínculos e sua cultura para buscar uma vida melhor. Submetem-se a trabalhos degradantes, rejeitados pela população local, quase sempre sem direitos trabalhistas e, em muitos casos, em condições que beiram a escravidão contemporânea.
Há mais de uma década, o Papa Francisco alertava para essa lógica perversa na encíclica Laudato Si’. Ao refletir sobre a ecologia integral, ele recordava que tudo está interligado: a crise ambiental, a crise social, a economia, os estilos de vida e os modelos de desenvolvimento. Não se trata apenas de proteger a natureza, mas de questionar profundamente as estruturas que produzem exclusão, pobreza e degradação humana. Não existem duas crises separadas — uma ambiental e outra social —, mas uma única e complexa crise socioambiental.
Essa visão integral impede respostas fragmentadas e soluções simplistas. Exige coragem para enfrentar as raízes do problema, repensar prioridades e colocar no centro a dignidade das pessoas, especialmente dos pobres e excluídos. Combater a pobreza, devolver dignidade aos descartados e cuidar da Casa Comum não são tarefas concorrentes, mas dimensões inseparáveis de um mesmo compromisso ético e civilizatório.
Diante disso, a pergunta que se impõe é inevitável: até quando aceitaremos que o medo, o punitivismo e a exclusão ditem as respostas aos desafios do nosso tempo? Persistir nesse caminho é aprofundar a barbárie. Romper com ele é apostar, com lucidez e coragem, na esperança que nasce da justiça, da solidariedade e do reconhecimento de que, de fato, tudo está interligado.

Este artigo foi editorial da Rede de Notícias da Amazônia em  22 de janeiro  de 2026.

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