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Encontro de comunicadoras e comunicadores debate o desafio de humanizar a comunicação em tempos de IA

Inspirados na mensagem do Papa Leão XIV, comunicadoras e comunicadores sociotransformadores vivenciaram a temática sobre os desafios técnicos da Inteligência Artificial com Rosane Borges

Inspirados na mensagem do Papa Leão XIV, comunicadoras e comunicadores sociotransformadores vivenciaram a temática sobre os desafios técnicos da Inteligência Artificial com Rosane Borges

 

Por Cláudia Pereira | Cepast-CNBB

 

A manhã de quarta-feira (25) foi de encontro para comunicadoras e comunicadores sociotransformadores. Embora virtual, o espaço o momento proporcionou a beleza da troca de saberes. Aos poucos, o mosaico de janelas nas telas dos computadores apresentou rostos que atuam em pastorais, organismos, redes e articulações espalhados pelo Brasil, um mosaico capaz de traduzir espaços e territórios de partilha e resistência.
O encontro, uma iniciativa da Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora (Cepast-CNBB), teve a inspiração da mensagem do Papa Leão XIV para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, com o tema: “Preservar vozes e rostos humanos”. A proposta foi conectar a espiritualidade e o cuidado na comunicação aos desafios técnicos da Inteligência Artificial e à conjuntura sociopolítica brasileira, em enfrentamento  à desinformação e às notícias falsas.
A acolhida, conduzida por Jucelene Rocha que atua na comunicação da Cepast, ela  trouxe para a sala virtual uma boa provocação para abrir a roda de conversa. Através de um vídeo da jornalista Milly Lacombe, ecoou a reflexão sobre a luta de todas e todos diante do cenário atual: “O impossível é o lugar para onde não cansamos de andar mais de uma vez quando queremos mudar de situação. Tudo que amamos foi um dia impossível” (frase do filósofo Vladimir Safatle). Esse foi o fio condutor para a temática do encontro.
No centro da roda virtual estava a jornalista e professora Rosane Borges. Pós-doutora, intelectual negra e voz fundamental da nossa comunicação contemporânea, Rosane não entrou na sala como quem apenas profere uma fala, mas como quem se senta na roda com os seus. “Eu me sinto em casa aqui com vocês”, disse com um sorriso, com a fraternidade de quem reconhece o chão que pisa.
professora Rosane levou os participantes a uma reflexão diante ao contexto atual do mundo da comunicação. Imagem: Divulgação.

Ética e espiritualidade diante da Inteligência Artificial

Autora do recém-lançado livro Imaginários Emergentes e Mulheres Negras, Rosane conduziu a conversa por caminhos complexos, mas essenciais. Falou sobre a urgência de conectar a espiritualidade e o cuidado aos desafios da Inteligência Artificial. Em um ano de encruzilhadas políticas e eleitorais, a luta contra a desinformação foi apresentada não apenas como um dever técnico, mas como um ato de preservação do humano.
Por quase duas horas, o que se vivenciou foi o fortalecimento único daqueles que Rosane carinhosamente definiu como os “Caminhantes da Borda do Mundo”: os comunicadores/as que reverberam o grito dos povos da cidade, do campo, das florestas e das águas, tornando visíveis seus rostos e clamores.
Ao início de sua partilha, Rosane apontou a dualidade tecnológica da sociedade atual: o equilíbrio entre o potencial emancipador e o risco de regressão. Para ela, é necessário resgatar a técnica como instrumento para o bem comum, impedindo que ela se sobreponha à humanidade. Ao traçar o percurso histórico do teocentrismo ao humanismo, que hoje transita por uma tecnologia que ocupar o centro das explicações de mundo, Rosane levou os participantes a uma reflexão ética para integrar a técnica a uma lógica de libertação e progresso social. “Dar à técnica o lugar que ela deve ocupar”, reforçou.

 

“Precisamos estar à altura do nosso cotidiano”. Reproduzindo a frase de Max Weber, Rosane pontuou a interseção entre tecnologia, ética e a reconstrução da humanidade através da comunicação. Para ela, o mundo contemporâneo está fraturado. A professora expôs a comunicação e a tecnologia no epicentro de uma crise civilizatória. A desinformação atual se distingue pela velocidade e pela transição do modelo de radiodifusão para o paradigma da conexão, no qual algoritmos e a inteligência artificial generativa mimetizam o simbolismo humano e reforçam bolhas de isolamento. O que vivenciamos diariamente.
“Se não lutarmos, abriremos mão de nossa humanidade e nos tornaremos apenas seres viventes. Vivemos hoje um contexto em que essa dimensão humana está sob ameaça, manifestada por meio do discurso, das fake news e das narrativas que circulam”, alertou. O desafio reside em “hackear” as estruturas digitais para promover uma comunicação emancipatória, capaz de restaurar vínculos sociais e reafirmar o pacto civilizatório a partir da perspectiva de quem habita as margens. “Não se pode acreditar que a comunicação seja apenas uma questão de performance técnica”.
Fechando o primeiro momento da roda de conversa, Rosane Rosane iluminou o debate propondo pensar a IA tanto como ameaça quanto como aliada: uma ferramenta que pode impulsionar a criatividade humana em vez de ser apenas parte da lógica produtiva. Enquanto o capitalismo transforma indivíduos em produtos, é preciso preservar a escuta dos marginalizados e incentivar a busca por mudanças “impossíveis”, semelhante ao espírito revolucionário de 1968.
“Os habitantes da borda do mundo veem coisas inimagináveis. Eles veem as catástrofes corroendo primeiro as suas vidas, exatamente por serem os excluídos, os pobres e os injustiçados. É necessário que, a partir desse lugar, resgatemos o enunciado de Maio de 68: ‘Sejamos realistas, peçamos o impossível'”, concluiu a professora no primeiro momento de partilha.

Comunicação emancipatória e o tempo espiral

No momento de troca de saberes, os participantes trouxeram questionamentos sobre os paradigmas da difusão, a renovação do pacto civilizatório e a solidão que a técnica por vezes impõe à coletividade das pastorais sociais. Respondendo aos desafios da plataformização, Rosane sugeriu uma mudança na percepção do tempo: a criação de narrativas em um “tempo espiral”, onde a comunicação é um contínuo, focado na autonomia e na emancipação. Uma inspiração na construção do Bem Viver dos Povos.
Respondendo aos questionamentos e colocações, Rosane fez a sua reflexão final sobre a articulação e urgência climática e o esgotamento do modelo neoliberal com a necessidade de uma comunicação ética. Ao citar as contradições da COP30, ela reafirmou que a saída reside na “lógica dos povos” das bordas, onde estão as táticas de sobrevivência e inteligência ancestral. O enfrentamento ao “brutalismo” contemporâneo exige o resgate do pensamento crítico para combater a banalização do mal e uma linguagem capaz de romper a indiferença. Rosane emocionou a todos ao citar episódios que que ilustram o que vivemos e ainda marcam a memória como os 111 tiros de Costa Barros e o caso Hind Rajab, transformando a comunicação em um vetor de comoção e emancipação social.
Utilizando a metáfora da “borda”, sugeriu que é preciso bordar um novo manto para o mundo, já que o tecido atual, que cobre apenas os privilegiados, está mofado e em ruínas. “Precisamos bordar um outro manto para o mundo, porque o tecido que cobre os privilegiados hoje está carcomido, mofado e cheio de goteiras. Enquanto esse velho mundo se esgota, são os povos injustiçados que estão produzindo um novo bordado para a nossa história’, concluiu Rosane Borges.
O encontro encerrou com o sentimento de fortalecimento mútuo das comunicadoras e comunicadores das pastorais sociais. A comunicação foi reafirmada não apenas como técnica, mas como missão de reverberar as vozes dos povos  dos povos da cidade, do campo, das florestas e das águas na defesa da vida em tempos de esgotamento.

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