Já estamos na metade do primeiro mês do ano e, apesar das expectativas, dos votos e dos sonhos de um tempo novo, a realidade mundial e local parece desmentir os desejos de mudança. Vivemos um cenário marcado pelo caos e pelo frenesim de uma economia de rapina e de morte que, em vez de abrir horizontes de fraternidade, amizade social e paz, continua assentada sobre trilhos de violência, de medição de forças, de ameaças e de uma verdadeira guerra midiática. Concretiza-se, assim, o antigo ditado romano: se queres a paz, prepara a guerra.
É neste contexto que o Papa Leão, recolhendo a herança do Papa Francisco, continua a afirmar — com a gentileza e a mansidão que lhe são características — a urgência de uma paz desarmada e desarmante. Nas suas palavras:

«No nosso tempo, ainda vemos demasiada discórdia, demasiadas feridas causadas pelo ódio, a violência, os preconceitos, o medo do diferente, por um paradigma económico que explora os recursos da Terra e marginaliza os mais pobres. E nós queremos ser, dentro desta massa, um pequeno fermento de unidade, comunhão e fraternidade. Queremos dizer ao mundo, com humildade e alegria: Olhai para Cristo! Aproximai-vos d’Ele! Acolhei a sua Palavra que ilumina e consola! Escutai a sua proposta de amor para vos tornardes a sua única família. No único Cristo somos um. E este é o caminho a percorrer juntos — entre nós, mas também com as Igrejas cristãs irmãs, com aqueles que percorrem outros caminhos religiosos, com quem cultiva a inquietação da busca de Deus, com todas as mulheres e todos os homens de boa vontade — para construirmos um mundo novo onde reine a paz… Esta é a hora do amor! A caridade de Deus, que faz de nós irmãos, é o coração do Evangelho.

Podemos hoje perguntar-nos: “Não se veria em breve prazo estabelecer-se a pacificação, se estes ensinamentos pudessem vir a prevalecer nas sociedades?”»
(cf. Rerum novarum, 14)
Infelizmente, também é possível seguir o caminho oposto: esquecer a luz. Quando isso acontece, perde-se o realismo verdadeiro e cede-se a uma representação parcial e distorcida do mundo, marcada pelas trevas e pelo medo. Hoje, não são poucos os que chamam de “realistas” narrativas privadas de esperança, cegas à beleza do outro e esquecidas da graça de Deus, que continua a agir nos corações humanos, mesmo quando feridos pelo pecado.
Santo Agostinho exortava os cristãos a estabelecerem uma amizade indissolúvel com a paz, para que, guardando-a no íntimo do próprio espírito, pudessem irradiar o seu calor luminoso ao redor. Dirigindo-se à sua comunidade, escrevia:
«Se quereis atrair os outros para a paz, tende-a vós primeiro; sede vós, antes de tudo, firmes na paz. Para inflamar os outros, deveis ter dentro de vós a luz acesa».
A paz, portanto, não é apenas uma ideia abstrata: é presença e caminho.
Ao reiterar o apelo dos Padres conciliares e reconhecendo o diálogo como a via mais eficaz em todos os níveis, constata-se que os recentes avanços tecnológicos e o uso das inteligências artificiais no âmbito militar estão a radicalizar a tragédia dos conflitos armados. Delineia-se até mesmo um processo de desresponsabilização dos líderes políticos e militares, que passam a “delegar” às máquinas decisões relativas à vida e à morte das pessoas. Trata-se de uma espiral de destruição sem precedentes, que compromete o humanismo jurídico e filosófico do qual qualquer civilização depende.
É necessário denunciar as enormes concentrações de interesses económicos e financeiros privados que empurram os Estados nessa direção. Contudo, isso não basta, se não for promovido, ao mesmo tempo, um verdadeiro despertar das consciências e do pensamento crítico.
A bondade, de fato, é desarmante. Talvez por isso Deus tenha escolhido fazer-se criança. A este respeito, o venerado Papa Francisco recordava que «a fragilidade humana tem o poder de tornar-nos mais lúcidos em relação ao que dura e ao que passa, ao que faz viver e ao que mata. Talvez por isso tendamos tão frequentemente a negar os limites e a fugir das pessoas frágeis e feridas: elas têm o poder de questionar a direção que escolhemos, como indivíduos e como comunidade».
Este é um serviço fundamental que as religiões são chamadas a prestar à humanidade sofredora: vigiar contra a crescente tentativa de transformar em armas até mesmo os pensamentos e as palavras. As grandes tradições espirituais, assim como o reto uso da razão, conduzem-nos para além dos laços de sangue, das identidades étnicas e das falsas fraternidades que reconhecem apenas os semelhantes e rejeitam os diferentes.
No entanto, este horizonte está longe de ser óbvio. Cada vez mais, assistimos à instrumentalização da fé no embate político, à bênção religiosa do nacionalismo e à justificação da violência e da luta armada em nome de Deus. Os fiéis são chamados a refutar ativamente, antes de tudo com a própria vida, essas formas de blasfêmia que obscurecem o Santo Nome de Deus.
Hoje, a justiça e a dignidade humana encontram-se mais expostas do que nunca aos desequilíbrios de poder exercidos pelos mais fortes. Como se recorda, «a melhor maneira de dominar e avançar sem entraves é semear o desânimo e despertar uma desconfiança constante, mesmo disfarçada por detrás da defesa de alguns valores».
A esta lógica é preciso contrapor o desenvolvimento de sociedades civis conscientes, formas de associativismo responsável, experiências de participação não violenta e práticas de justiça restaurativa, tanto em pequena quanto em grande escala.
Neste horizonte insere-se o Jubileu da Esperança, que levou milhões de pessoas a redescobrirem-se peregrinas e a iniciarem em si mesmas aquele desarmamento do coração, da mente e da vida ao qual Deus não tarda em responder, cumprindo as suas promessas:
«Ele julgará as nações e dará as suas leis a muitos povos; transformarão as suas espadas em relhas de arados e as suas lanças em foices. Uma nação não levantará a espada contra outra e não se adestrarão mais para a guerra. Vinde, Casa de Jacob! Caminhemos à luz do Senhor»
(Is 2,4-5).
Este artigo foi editorial da Rede de Notícias da Amazônia em 13 de janeiro  de 2026.

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