Por Vera Dalzotto, Pe. Gianfranco Graziola

 

O tempo presente parece marcado por uma profunda desconfiança em relação ao futuro. Cresce, em muitas partes do mundo, o discurso dos senhores da guerra, que procuram impor um modelo de sociedade no qual a paz e a convivência social seriam garantidas pela superioridade bélica. Por trás dessa lógica permanece o antigo e sempre repetido ditado: se queres a paz, prepara a guerra.

É essa mentalidade que acaba justificando os massacres na Faixa de Gaza, na Ucrânia, no Irã, no Líbano e em tantos outros conflitos que assolam este primeiro quarto do século XXI — aquilo que o Papa Francisco descreveu como uma verdadeira terceira guerra mundial em pedaços.

Mas não é apenas nas frentes militares que a guerra se manifesta. Existe também entre nós uma guerra mais silenciosa e muitas vezes quase imperceptível. Ela invade nossas cidades, nossos bairros, as relações familiares e o ambiente de trabalho. É alimentada pelas redes sociais e pelas falsas notícias que disseminam ódio, manipulam os fatos e constroem narrativas capazes de justificar agressões, violência e a normalização da truculência.

Esse ambiente acaba servindo para proteger uma economia que exclui e descarta os mais frágeis, sobretudo aqueles que habitam as periferias urbanas e existenciais. Em nome do bem-estar de poucos, multidões de inocentes são sacrificadas dentro de uma engrenagem que pune, esmaga e mata sem piedade. Os números dessas vítimas tornam-se estatísticas frias, enquanto muitas mães já não encontram lágrimas nem fôlego para chorar seus filhos.

 

Nesse contexto, torna-se urgente recuperar caminhos concretos de reconstrução das relações humanas, e é aqui que a justiça restaurativa se apresenta como uma alternativa profundamente transformadora. Mais do que um modelo jurídico, ela é uma cultura de encontro, de escuta e de responsabilização. Seus pressupostos partem da centralidade da pessoa, da dignidade humana e da convicção de que todo dano gera consequências que precisam ser enfrentadas de maneira ética e comunitária.

A justiça restaurativa propõe romper com a lógica puramente punitiva e introduz uma dinâmica baseada nos “erres” que sustentam seu processo: reconhecer, responsabilizar e reparar. Reconhecer significa encarar a verdade dos fatos sem disfarces, dar nome às feridas, admitir o sofrimento causado e acolher a dor das vítimas. É o primeiro passo para sair da negação e iniciar um caminho de reconstrução.

Responsabilizar-se é ir além da culpa abstrata: é assumir concretamente as consequências dos próprios atos, compreender o impacto gerado na vida do outro e na comunidade, e abandonar a lógica da justificativa para abraçar a lógica do compromisso. Não se trata de humilhar, mas de restaurar a consciência e reabrir a possibilidade de transformação.

Reparar, por sua vez, é o movimento que busca reconstruir o que foi rompido. Pode assumir formas materiais ou simbólicas, mas sempre carrega a intenção de recompor vínculos, restituir dignidade e recriar condições de convivência. A reparação não apaga o passado, mas inaugura um futuro possível.

Esses pilares — reconhecer, responsabilizar e reparar — não se limitam ao âmbito jurídico. Eles podem e devem atravessar as relações familiares, escolares, comunitárias e sociais. Em um mundo ferido por tantas formas de violência, a justiça restaurativa oferece um caminho concreto para transformar conflitos em oportunidades de crescimento, cura e reconciliação.

Ela nos convida a substituir a indiferença pela escuta, a vingança pelo diálogo, a exclusão pela reintegração. Propõe círculos de encontro onde vítimas, ofensores e comunidade possam reconstruir, juntos, os laços rompidos. Aponta para uma sociedade onde a justiça não seja apenas punição, mas também cuidado, responsabilidade e restauração.

Apesar desse cenário de fracasso e desalento, a história nunca deixa de gerar profetas. São homens e mulheres que continuam sonhando com uma humanidade mais fraterna e que fazem ressoar, mesmo em meio ao ruído das guerras, o apelo pela paz.

Eles recordam a boa notícia que ecoou no primeiro dia da semana: a pedra removida do túmulo abriu espaço para o jardim da nova criação. Ali brilha a luz do Filho do Homem que, vencendo os sinais da morte, proclama que a vida triunfou.

É esse anúncio que nos chama a deixar para trás o saudosismo estéril do passado e a assumir o compromisso de um presente capaz de inaugurar uma nova história: a civilização do amor. Um amor que chega primeiro, acredita, assume responsabilidades e se torna semente de uma nova humanidade e de um mundo novo.

E é justamente nesse horizonte que a justiça restaurativa encontra sua força mais profunda: ao nos ensinar a reconhecer o outro, a nos responsabilizar por nossas ações e a reparar aquilo que foi ferido, ela se torna caminho concreto para a construção da paz — não como ausência de conflito, mas como presença ativa de justiça, verdade e reconciliação.

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