Por Cláudia Pereira | Cepast-CNBB
No último sábado (25), três vidas foram ceifadas em conflitos por terra no Brasil. Antônio Renato, de 32 anos, Josias Albuquerque de Oliveira (conhecido como Pica), de 45, e o adolescente Arthur Henrique Ferreira Said, de apenas 14 anos, foram vítimas de uma emboscada na Gleba Recreio do Santo Antônio, região da Amacro, sul de Lábrea (AM). O crime ocorreu em uma zona de fronteira com o Acre, marcada por tensões históricas e crimes ligados à disputa fundiária.
Esta violência brutal marca o lançamento da 40ª edição do relatório Conflitos no Campo Brasil 2025, realizado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) na manhã de hoje, (27) na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Brasília. O evento teve início com memória em solidariedade às famílias das vítimas de agora e ano passado com as comunidades impactadas por essa violência contra a vida dos povos do campo, das florestas e das águas.
Os dados consolidados de 2025 apresentam um quadro alarmante de insegurança. Houve uma redução de 28% no número total de registros em comparação ao ano anterior, totalizando 1.593 ocorrências, o terceiro menor volume da última década. No entanto, a letalidade deu um salto drástico: o número de assassinatos subiu de 13 para 26 vítimas, um aumento de 100%.
A Amazônia Legal concentra a maior parte da violência extrema, sendo o palco de 16 das 26 execuções. O relatório também destaca dois massacres (episódios com três ou mais mortes) ocorridos no Pará e em Rondônia.
O presidente da CPT, dom José Ionilton Lisboa de Oliveira, enfatizou a necessidade de resistência política e visibilidade para as causas do campo:
“Apresentamos novamente o relatório de conflitos no campo porque a missão da CPT exige denunciar a violência e dar visibilidade ao que é silenciado. Queremos paz no campo e lutamos para que menos vidas sejam perdidas. Devemos lutar por democracia, soberania e direitos humanos, garantindo terra, teto e trabalho para todos. Estamos em ano eleitoral e a eleição é importante, especialmente para eleger um Congresso comprometido com o povo e o meio ambiente. Precisamos resistir e atuar na base para alcançar essas mudanças”, refletiu dom Ionilton.

Raio-X dos conflitos, atuação do agronegócio e trabalho escravo
A disputa pela terra continua sendo o principal motor da violência, respondendo por 75% das ocorrências (1.286 casos), com o estado do Maranhão liderando o ranking nacional. Já os conflitos pela água registraram 148 casos, o menor índice em dez anos, embora a gravidade da poluição e destruição de mananciais persista, especialmente no Pará.
Para além dos números, o relatório evidencia o impacto devastador da violência sobre os territórios e a tentativa de desestruturação das organizações sociais. O avanço da violência no campo atinge o cerne da vida comunitária e familiar, transformando a legítima defesa de direitos fundamentais e da natureza em um risco iminente de morte para lideranças e populações de Povos e Comunidades Tradicionais.
Os dados de 2025 revelam que a agressividade contra os defensores da terra e dos recursos naturais expandiu-se em diversas frentes:
- Povos das Águas: As ocorrências de violência contra ribeirinhos e comunidades pesqueiras cresceram 9%.
- Conflitos Trabalhistas: Casos de exploração e abusos no campo registraram alta de 10%.
- Resistência Comunitária: A violência direcionada especificamente contra as formas de organização de povos tradicionais subiu 6%.

Esses índices reforçam a urgência de políticas públicas de proteção e fiscalização. O aumento da letalidade e dos conflitos expõe uma pressão contínua e coordenada sobre as populações rurais em todo o território nacional.
O trabalho escravo rural registrou um aumento de aproximadamente 5% no número de casos e de 23% no total de pessoas resgatadas, somando 1.991 trabalhadores em 2025. Identificado em 159 ocorrências mapeadas no relatório. Esse contingente marca os 30 anos do Grupo Móvel de Fiscalização sob um cenário de persistente violação de direitos. O setor sucroenergético e grandes obras de infraestrutura figuraram como os principais eixos dessa exploração, com destaque para o resgate de 586 trabalhadores na construção de uma usina de etanol em Porto Alegre do Norte (MT), onde as vítimas, aliciadas no Norte e Nordeste, viviam em alojamentos superlotados e precários até a intervenção ser deflagrada por um incêndio no local.
A precarização também se agravou severamente nos centros urbanos, onde a Campanha “De Olho Aberto para não Virar Escravo” registrou 1.007 resgates em 122 casos, um salto de 60% em relação ao ano anterior. Geograficamente, o Mato Grosso liderou o volume total de resgates com 606 pessoas libertadas, enquanto Minas Gerais consolidou-se novamente como o estado com o maior número de registros individuais, somando 35 ocorrências e 303 trabalhadores resgatados. Além da construção civil e da cana-de-açúcar, as lavouras, especialmente a de café no Sudeste e a mineração no Nordeste seguem concentrando os maiores índices de trabalho análogo à escravidão no país.
As vozes que ecoam da resistência
Em forma de notas musicais e poesia, o momento teve relatos fortes de quem enfrenta a violência no dia a dia. Lincoln Fernandes de Lima, morador da Resex Jaci-Paraná (RO), descreveu o avanço da grilagem: “Nosso território vem sendo invadido por fazendeiros e madeireiros que destroem a floresta. Vivemos sob repressão e ameaças constantes”.
Representando a comunidade tradicional de seringueiros, Lincoln relatou como o modo de vida baseado no extrativismo sustentável está sendo asfixiado por uma invasão coordenada de fazendeiros e madeireiros. O território que deveria ser protegido, hoje se encontra quase totalmente desmatado e dominado por grandes fazendas de gado.
Mesmo após a vitória da comunidade em reverter uma lei estadual que previa a redução da reserva, os ataques permanecem constantes. Não bastasse tudo isso, a existência de legislações recentes que favorecem invasores, promovem a expulsão de famílias tradicionais e anulam multas e ações judiciais. Hoje, as poucas famílias que ainda resistem no local vivem sob um regime de profunda repressão e ameaças.
A dimensão sensível da luta veio com Rosilda de Jesus Pereira, quilombola do Vale do Rio Peixe Bravo (MG). Com seu violão, ela cantou de forma literal a dor e a luta dos povos e comunidades tradicionais que enfrentam as mineradoras em seu estado. “Minha missão cristã é lutar pela vida e pela nossa casa comum. Enfrentamos conflitos com mineração e grileiros que ameaçam nossa água e cultura. Não vamos nos calar”.
Rosilda descreveu o cerco imposto pela mineração, grilagem e monocultura que afeta água e a cultura. O maior gerador de conflitos no estado, como em todo país é a luta pela titulação urgente dos territórios. É o direito viver com dignidade, cultura e liberdade. “Não vamos nos calar diante das ameaças e seguimos firmes pela democracia, igualdade e reconhecimento das nossas comunidades tradicionais” disse Rosilda.
A impunidade e a omissão do Estado
A análise jurídica e sociológica complementou os depoimentos. O debate sobre a insegurança jurídica foi aprofundado por José Batista Afonso, advogado e agente da CPT em Marabá (PA). Ele apresentou dados estarrecedores sobre o sul e sudeste do Pará, região historicamente marcada pelo sangue: desde o massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996, ocorreram outros 17 massacres na região, resultando na morte de 77 camponeses.
Batista enfatizou que a impunidade persiste como regra, atingindo raramente os executores e quase nunca os mandantes. Segundo o advogado, entre 1980 e 2024, 137 defensores de direitos humanos foram assassinados no Pará, com um índice ínfimo de julgamentos e condenações. Para ele, o cenário é nítido: “A impunidade virou uma licença para matar, perpetuando o ciclo de violência no campo”.
A professora Leonilde Servolo de Medeiros, especialista em sociologia dos movimentos sociais rurais e na questão agrária, analisou que a violência não é um fenômeno isolado, mas constitutiva da história brasileira, marcada pelo genocídio indígena, pela escravidão e pela marginalização das populações pobres. Para ela, essa violência é tanto física quanto simbólica, sendo frequentemente legitimada por discursos que buscam desqualificar e silenciar esses grupos tradicionais.
A professora Leonilde destacou que, se por um lado a modernização do campo intensificou a expropriação e a precarização do trabalho, por outro, a organização dos povos indígenas, quilombolas e do campo trouxe novas e necessárias formas de resistência. Atualmente, a questão agrária envolve a financeirização da terra e a articulação do agronegócio com o capital internacional, um modelo sustentado por uma omissão que ela classifica como intencional:
“Eu chamaria isso de uma omissão brutal do Estado em suas três esferas: Executivo, Legislativo e Judiciário. Isso nos impõe questões fundamentais para a compreensão da questão agrária. Quando tratamos de propriedade e grilagem, torna-se ilógico pensar nessa prática diante da tecnologia e dos drones que possuímos hoje. Não se trata de incompetência, mas de uma omissão deliberada. É um descaso intencional com essa dimensão dramática e com os dados da CPT sobre os trabalhadores do campo.”
A CPT reforça que os dados de 2025 são um chamado à ação para a sociedade civil e o poder público. “No ano passado, houve queda nos homicídios; em 2025, observamos o inverso: menos registros, mas muito mais sangue derramado. São reflexões urgentes que o Brasil precisa fazer”, concluiu Carlos Lima, da Coordenação Nacional da CPT.
Lançamento: Observatório Socioambiental
Encerrando o evento, foi apresentada e lançada a plataforma Observatório Socioambiental. Fruto de uma parceria entre diversas organizações, a ferramenta integra dados inéditos sobre desmatamento, expansão do agronegócio e violações de direitos humanos.
A plataforma funciona como um instrumento de monitoramento estratégico para comunidades locais, governos e empresas, permitindo dar transparência a estudos ambientais questionáveis que muitas vezes sustentam a expropriação de terras. “Convidamos todos a utilizarem o observatório para aprofundar o debate socioambiental no Brasil”, afirmou Gabriela Russo, da organização Diversa.
Os dados mostram que a violência está intrinsecamente ligada à fronteira de expansão do agronegócio no Pará, Mato Grosso, Bahia e Maranhão, atingindo quase um milhão de pessoas anualmente.
O lançamento da 40ª edição do relatório da CPT e da nova plataforma foi transmitido ao vivo e a íntegra do evento segue disponível para visualização no canal oficial da CPT Nacional no YouTube.