Por Cláudia Pereira | Cepast-CNBB
O Brasil alcançou um marco no monitoramento ambiental em 2025: pela primeira vez desde 2019, a área total de vegetação nativa desmatada ficou abaixo da marca de 1 milhão de hectares em um único ano. Segundo os dados do Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD2025), publicado ontem (27) pelo MapBiomas, foram perdidos 984.794 hectares, o que representa uma queda expressiva de 20,6% em relação a 2024.
No entanto, a velocidade da destruição ainda é um fator crítico. A média nacional no último ano foi de 2.698 hectares desmatados por dia, cerca de 112 hectares por hora. Na prática, é como se uma área equivalente a 17 parques do Ibirapuera (São Paulo) fosse desmatada todos os dias no país.
Anualmente, o MapBiomas divulga o relatório sobre o desmatamento dos biomas brasileiros. A plataforma MapBiomas Alerta valida e refina os dados usando imagens de alta resolução, reunindo as informações em um sistema público e gratuito. O monitoramento quantifica destruição de vegetação nativa sem julgar a legalidade da ação, com um grande volume de dados atualizados semanalmente. O processo envolve a compilação de alertas de várias fontes, validação, refinamento, cruzamento com dados públicos e a publicação na plataforma e via API.
Nos últimos sete anos, o território brasileiro perdeu mais de 10,9 milhões de hectares de vegetação nativa, uma área superior à extensão do estado de Pernambuco. Desse total acumulado, 97% está diretamente associado à expansão do agronegócio — um cenário que se reflete também no relatório de conflitos no campo da Comissão Pastoral da Terra (CPT) sobre as violações e violências contra povos e comunidades tradicionais. Quando isolado o ano de 2025, o impacto do setor é ainda maior: “A agropecuária é responsável por 99% de todos os desmatamentos em 2025 no Brasil”, afirmou Natália Cruzco, do MapBiomas, durante a apresentação dos dados.
O levantamento aponta que 55% dos municípios brasileiros registraram algum desmatamento em 2025, enquanto 45% não tiveram nenhum evento. Os 10 municípios que mais desmatam concentram 15% do total nacional, com destaque crescente para o Cerrado. É o caso de Canto do Buriti, no Piauí, que lidera o ranking municipal pelo segundo ano consecutivo, com mais de 20 mil hectares desmatados.
Cerrado e Amazônia lideram a perda
Todos os biomas do país registraram redução na área desmatada em 2025, mas a Amazônia e o Cerrado juntos responderam por mais de 84% de toda a derrubada de florestas e vegetação nativa no Brasil.
O avanço sobre o Cerrado: O bioma permanece, pelo terceiro ano consecutivo, como o mais desmatado do país, com 540.614 hectares perdidos em 2025.
- Concentração: A região concentra sozinha 54,9% do desmatamento nacional, apesar de apresentar uma queda de 16,9% em relação ao ano anterior.
- Perda diária: A taxa de destruição no Cerrado é de 1.482 hectares diários, afetando predominantemente as formações savânicas.
- A situação da Amazônia: O bioma teve 289.478 hectares desmatados, uma redução de 23,5% frente a 2024.
- Velocidade na floresta: Ainda assim, o desmatamento na região amazônica foi de 792 hectares por dia, o equivalente à perda de cerca de cinco árvores por segundo.
Em contrapartida, o Pantanal registrou a maior redução proporcional entre todos os biomas brasileiros, com uma queda de 48,4% na área desmatada, somando 12.260 hectares perdidos.
Ao detalhar a distribuição o desmatamento ao longo do ano, Natália Cruzco chamou a atenção para o comportamento de outras regiões. Em 2025, a Mata Atlântica voltou a um padrão de estabilidade após os eventos extremos registrados em 2024, enquanto a Caatinga manteve patamares elevados de desmatamento entre 2024 e 2025. O pico da destruição nacional ocorreu no dia 28 de maio de 2025, quando foram devastados 2.818 hectares em um único dia — o equivalente a quase 4 mil campos de futebol.

O alerta no MATOPIBA
A fronteira agrícola do MATOPIBA consolidou-se como a região mais crítica do país. Ao analisar a realidade desse território, o Maranhão se destaca ao liderar o ranking nacional de desmatamento por estado pelo terceiro ano consecutivo, com 154.294 hectares perdidos — mesmo apresentando uma queda de 30% em relação ao período anterior.
A pressão na região se reflete nos seguintes indicadores:
- Impacto nacional: A região do MATOPIBA concentrou sozinha 40% de todo o desmatamento do Brasil em 2025.
- Impacto no Cerrado: O polo agrícola responde por 70% da perda de vegetação registrada no bioma.
- Os estados que mais desmatam: Os quatro estados que compõem a fronteira (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), somados ao Mato Grosso, respondem por mais de 63% da área total desmatada no país.
- No âmbito municipal, a liderança de Canto do Buriti (PI) impressiona pelos números: o município contabilizou uma média diária de 57,2 hectares destruídos, cerca de 80 campos de futebol por dia.
O que achou dessa costura? Ela traz o dado do Maranhão para o topo do bloco regional, dando o devido destaque logo no início do assunto.
Garimpo, energia e expansão urbana
Embora o agronegócio domine os índices, o levantamento do MapBiomas Alerta detalha o impacto de outros vetores em biomas específicos:
- Garimpo: A atividade continua concentrada fortemente na Amazônia, que respondeu por 99% de todos os alertas associados a esse tipo de exploração no Brasil, especialmente no estado do Pará.
- Energia Renovável: Os desmatamentos causados pela instalação de empreendimentos de energia renovável estiveram majoritariamente na Caatinga, respondendo por 97% das perdas ligadas a este vetor.
- Expansão Urbana: O desmatamento com foco em urbanização cresceu 7% em 2025. O Cerrado lidera os alertas desse vetor pelo segundo ano, concentrando, junto com a Amazônia, mais de 60% dessa perda.
Áreas protegidas e Povos Tradicionais
As Unidades de Conservação (UCs) e as Terras Indígenas (TIs) permanecem como escudos contra o avanço da devastação, e ambas apresentaram queda em seus índices. Em TIs, a perda foi de 12.593 hectares em 2025, o que representa uma redução de 22% em relação a 2024. No geral, de 2019 a 2025, apenas 1,7% (184.622 hectares) de todo o desmatamento do Brasil ocorreu dentro desses territórios tradicionais.
Nas Unidades de Conservação, o desmatamento totalizou 46.257 hectares no ano, uma redução de 21,4%. A maior parte desse impacto localizou-se no Cerrado, principalmente nas Áreas de Proteção Ambiental (APAs), que concentraram 97% da área atingida neste bioma.
