“A tortura. Meu Deus, a tortura! A tortura não é uma história do passado. Infelizmente, faz parte da nossa história atual. Como é possível que a capacidade humana para a crueldade seja tão grande?” – Papa Francisco
O transcurso da história deveria representar o avanço da humanidade rumo a uma convivência fundada no amor ao próximo, na fraternidade e na construção da paz social. No entanto, o que frequentemente testemunhamos é a passividade diante de algumas das mais graves violações da dignidade humana, em evidente contradição aos valores proclamados pelo Evangelho.
A história do Brasil é profundamente marcada pela prática da tortura. Longe de ter sido abolida com o fim da escravidão, ela assumiu novas formas e continuou a se manifestar em nossa sociedade, especialmente no sistema prisional. Silenciosa e invisibilizada, a tortura se revela na fome, na sede, na precariedade das condições de encarceramento e na negação do acesso à saúde e aos direitos fundamentais.
Em 02 de outubro de 2002, 111 pessoas perderam a vida no Carandiru. Em 29 de julho de 2019, foram 62 em Altamira. De forma discreta, pouco alarmista, a tortura continua ceifando centenas de vidas por dia, seja por meio da violência física, seja pela omissão do Estado diante de doenças cujo tratamento é fornecido de forma gratuita pelo SUS.
Em memória às vítimas vencidas por um sistema que dizima as pessoas, e por aquelas que vivenciam diariamente esse sistema, a Pastoral Carcerária Nacional vem emitir seu apoio e garantia de perseverança nessa árdua batalha em defesa da vida e da dignidade humana.
Ainda que poucos consigam se desvencilhar desse sistema de opressão, que busca não apenas penalizar por meio do castigo, mas também apagar a identidade da pessoa privada de liberdade, resta a nós, agentes da Pastoral Carcerária, garantir que a dignidade humana seja preservada, e buscar ainda fazer jus à memória daqueles que não conseguiram contar sua própria história.
Completando seu 28º aniversário desde a instalação do Dia Internacional das Nações Unidas em Apoio às Vítimas de Tortura, em dezembro de 1997, a data oferece um convite ao mundo: ouvir e fazer memória em prol daqueles que tiveram suas vidas marcadas pela tortura.
O chamado de Jesus Cristo no Evangelho é incompatível com qualquer forma de tortura. Por isso, não podemos trilhar o caminho da indiferença, da tolerância ou da aceitação dessas práticas. Somos chamados a ser profetas da justiça, defensores da dignidade humana e instrumentos de acolhimento, escuta e esperança para todas as vítimas.
Que a memória daqueles que sofreram e perderam suas vidas inspire em todos nós um compromisso permanente com a defesa dos direitos humanos, da justiça e do respeito à integridade física, psíquica e espiritual de cada pessoa. Que nunca nos falte coragem para denunciar a tortura, solidariedade para acolher suas vítimas e fé para acreditar na transformação de uma sociedade verdadeiramente justa e fraterna.