Enquanto o mundo da bola monopoliza a atenção das multidões e a campanha eleitoral ganha força, com pré-candidatos à Presidência prometendo salvar o país por meio da força e apresentando a violência como solução para os desafios de uma sociedade refém das facções criminosas e do avanço das milícias, ergue-se, firme e serena, a voz de um homem que, vindo das periferias existenciais, foi chamado, há pouco mais de um ano, a conduzir a Igreja Católica. Ao escolher o nome de Leão XIV, ele colocou, desde o primeiro instante de seu ministério petrino, a paz como eixo central de seu pontificado.

Para Leão XIV, a paz não significa apenas a ausência de guerra. Ela é uma realidade muito mais profunda, presente, sob diferentes perspectivas, em praticamente todos os seus pronunciamentos. No discurso de encerramento do Consistório Extraordinário, que reuniu cardeais de todo o mundo, retomando a reflexão apresentada na Magnifica Humanitas, afirmou:

“É precisamente no coração que também se decide a paz. Antes de se manifestar na história, a guerra nasce dentro de nós, quando a desconfiança toma o lugar da confiança, o medo substitui a esperança e o outro passa a ser visto como uma ameaça. A guerra não é apenas um conflito entre Estados. Ela nasce muito antes, de uma cultura do poder que permeia a nossa maneira de pensar, de viver as relações, de exercer a autoridade, de utilizar a economia, a tecnologia e até mesmo a religião.”

Leão XIV está convencido de que os grandes dilemas e sofrimentos da humanidade somente encontrarão resposta quando nascerem de um coração reconciliado. É desse coração que brotam palavras desarmadas, relações renovadas e novos olhares sobre o outro.

Nesse contexto, o Papa apresenta a não violência não como uma atitude passiva ou resignada, mas como uma escolha profundamente evangélica e responsável. Trata-se de enfrentar o mal sem reproduzir sua lógica; de não se calar diante da injustiça, mas também de recusar transformar o outro em inimigo. A construção da paz começa pelo desarmamento do próprio coração, das próprias palavras.

Durante os trabalhos do Consistório, Leão XIV destacou ainda outros temas de grande relevância. Entre eles, a necessidade de redescobrir o bem comum como horizonte da vida social, reconhecendo que os pobres não são apenas destinatários da ação da Igreja, mas protagonistas da esperança que Deus continua a suscitar na história. Sublinhou também a importância do testemunho de uma Igreja que escuta, dialoga e caminha junto. Uma Igreja verdadeiramente sinodal, capaz de formar consciências, promover espaços de escuta qualificada, discernir à luz do Espírito Santo e envolver todos os batizados na construção da civilização do amor e no serviço ao bem comum.

Ao concluir seu discurso, dirigiu um apelo que ultrapassa as fronteiras da Igreja e se dirige a toda a humanidade:

“Deus deseja a paz para cada nação e para cada povo. Por isso, não devemos nos resignar diante da violência. A violência não terá a última palavra. Deus continua a abrir, na história, caminhos de reconciliação e de paz. Temos a responsabilidade de percorrê-los com coragem e de ajudar o mundo a reconhecê-los.”

Talvez possamos sintetizar a proposta de Leão XIV afirmando que a paz tem, hoje, um nome novo: justiça restaurativa. Uma justiça que não se limita à punição, mas busca restaurar pessoas, reconstruir relações, recompor comunidades e abrir caminhos de reconciliação.

Mais do que um método jurídico, trata-se de uma verdadeira espiritualidade social, capaz de inspirar uma nova cultura, fundada na dignidade da pessoa, no diálogo, na responsabilidade compartilhada e no amor. É esse o horizonte que Leão XIV propõe à Igreja e ao mundo: uma sociedade reconciliada, construída não pela força das armas, mas pela força transformadora do Evangelho.

Este artigo foi editorial da Rede de Notícias da Amazônia em  30 de junho de 2026.

Tags:

Relacionados