Vida e Terra Sim. Violência Não!
Nos últimos três anos, 70 pessoas foram assassinadas e, no ano de 2025, foram registrados dois massacres no campo brasileiro. É neste cenário de luta pela reforma agrária, pela regularização de territórios e pela demarcação das terras dos povos originários que comunicadoras e comunicadores se reuniram pela primeira vez de forma presencial, para planejar e refletir sobre o fortalecimento da comunicação e ecoar as denúncias de violências e violações contra os povos do campo, das florestas e das águas.
Em uma dinâmica simbólica utilizando um emaranhado de fios, o Grupo de Trabalho (GT) de comunicadores da Campanha Contra a Violência no Campo (CCVC) deu início à atividade “Teia da Comunicação”. A dinâmica partiu da análise das realidades de diferentes contextos e, sobretudo, das vivências dos territórios.
Realizado no Centro Cultural Missionário (CCM), em Brasília (DF), o encontro reuniu comunicadores de pastorais, organismos institucionais e, especialmente, comunicadores territoriais. O evento contou com o destaque de representantes da Teia dos Povos e Comunidades Tradicionais (MA), do Movimento Quilombola do Maranhão (MOQUIBOM) e dos territórios quilombolas Kalunga e Mesquita, de Goiás.
Juntos, os participantes refletiram sobre os quatro anos de caminhada da CCVC e seus objetivos centrais. Para além de estruturar o plano de comunicação que serve como fio condutor das ações, o grupo debateu caminhos práticos para enraizar a comunicação da Campanha nas bases. Como sintetizou o secretário-executivo da Campanha, Jardel Lopes, o momento exige “colocar as máquinas, as mentes e, principalmente, os corações” a serviço da causa.

Contexto histórico e desafios estruturais
“Estamos sob risco, a violência vai aumentar”
Carlos Lima, da coordenação Nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), resgatou o contexto histórico da Campanha. Ao analisar os avanços e desafios, ele apontou que o enraizamento nas bases continua sendo o principal objetivo para fortalecer a articulação da CCVC. Atualmente, apesar das dificuldades estruturais, a Campanha tem conseguido pautar o debate sobre a violência no campo de forma orgânica na sociedade brasileira e em alguns estados. O caráter permanente da mobilização foi reafirmado como essencial diante de realidades cada vez mais urgentes.
Nesse cenário de agressões constantes, ele lembrou a importância de a Campanha pautar a urgência de dar visibilidade a casos emblemáticos de criminalização da advocacia popular e aos recentes massacres registrados na região Norte. Neste sentido a comunicação das pastorais e organismo que atuam com as pautas do campo, pautaram esses fatos considerando a relevância da comunicação local e nacional.
Carlos pontuou ainda que a própria existência da Campanha se deve a um modelo desenvolvimentista que não se altera e pressiona, de maneira violenta, as pessoas e a natureza. “Estamos sob risco, a violência vai aumentar. A transição energética e a expansão da infraestrutura aumentam os riscos e a violência em áreas de assentamento, agravando conflitos e impactando comunidades”, exemplificou, reforçando a importância do enraizamento da comunicação em todos os seis eixos da Campanha.

Comunicação e os desafios
Embora a Campanha fortaleça as organizações, amplie o debate público e aprofunde a reflexão sobre a violência, o fazer cotidiano da comunicação enfrenta desafios práticos de enraizamento. Entre as principais dificuldades diagnosticadas pelo GT está o desafio de equilibrar o atendimento às demandas urgentes dos conflitos com o desenvolvimento de uma comunicação estratégica de longo prazo. Além disso, o grupo apontou a necessidade de romper “bolhas” para ampliar o alcance das mensagens além do ambiente digital e do público interno, garantindo sempre a segurança física e digital das lideranças nos territórios.
Para superar as limitações que esbarram nos campos financeiros, técnicas e a histórica e altas demandas, o encontro apontou a necessidade de fortalecer a autonomia na produção de notícias e estruturar fluxos ágeis, seguros e permanentes de compartilhamento de informações. O planejamento coletivo prevê o estabelecimento de protocolos de segurança e comunicação para coberturas de eventos, diretrizes de divulgação e suporte jurídico para a rede.
O primeiro dia também foi dedicado a agilizar as decisões coletivas para pensar na produção de materiais essenciais, organização de encontros e alinhamento para com o objetivo de planejar a atividade nacional da Campanha a ser realizada neste ano.
Orientações jurídicas e salvaguardas na comunicação
“Devemos equilibrar o direito à liberdade de expressão e de informar, protegido pelas leis nacionais e internacionais”
No segundo dia, as atividades foram assessoradas pela assistente jurídica da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Lara Estevam Lourenço, que trouxe orientações éticas e jurídicas para o trabalho de comunicadores e jornalistas no enfrentamento à violência no campo. Durante o debate, foi iniciada a proposta de criação do protocolo de proteção e orientação baseado em um referencial jurídico para as publicações e manifestações produzidas pelo grupo. Esse instrumento é importante tanto para proteger as comunicadoras e os comunicadores em sua atuação quanto para resguardar juridicamente as instituições envolvidas diante das peças de comunicação que são veiculadas.
Com base nos fundamentos constitucionais, Lara abordou os limites e garantias da liberdade de expressão, o cuidado na citação e nomenclaturas e a necessidade de proteção das comunidades que estão em constante conflito pelo Brasil.
As reflexões partiram de um documento orientativo da CPT criado para proteger os comunicadores de processos e notificações judiciais, especialmente em matérias que expõem violadores de direitos. A intenção foi construir salvaguardas para mitigar riscos e fortalecer a defesa jurídica coletiva em casos de eventual judicialização a partir das informações coletadas nas comunidades. O espaço permitiu sanar dúvidas, compartilhar experiências in loco e discutir o aprimoramento desse material para que as próprias comunidades possam contribuir de forma segura com os veículos de comunicação.
“Devemos equilibrar o direito à liberdade de expressão e de informar, protegido pelas leis nacionais e internacionais, com a responsabilidade de não ferir outros direitos, como acusar sem provas; o jornalismo precisa se basear em evidências e respeitar limites éticos e legais”, explicou Lara.
A advogada ressaltou, porém, que o papel social da denúncia não deve ser paralisado pelo medo: “Divulgar informações relevantes para o interesse coletivo pode ser mais importante do que esperar todas as salvaguardas jurídicas, especialmente quando há impacto político ou social significativo”, ponderou, apontando a necessidade de buscar o equilíbrio através do uso de uma linguagem precisa e cautelosa.
“O encontro do GT de comunicação foi inédito e aprofundou o planejamento coletivo da campanha, incluindo um protocolo jurídico para proteger comunicadores e instituições. Houve participação ampla de representantes e especialmente de territórios, promovendo troca relevante sobre desafios e estratégias. A comunicação é fundamental para que a campanha possa se expandir de um modo especial, que ela possa enraizar nos territórios, na sociedade, de um modo geral. Então, foi um encontro muito importante para a campanha e também para as pessoas, para os comunicadores e comunicadoras que ali participaram”, frisou Jardel Lopes.
Caminhos fortalecidos
“O encontro foi muito produtivo, ampliou minha visão sobre a importância da comunicação para garantir direitos e proteger nosso território”
No mês de agosto, a Campanha Contra a Violência no Campo completa quatro anos de existência. Para marcar a data, está sendo programada a Semana Nacional de Enfrentamento à Violência no Campo, que contará com atividades descentralizadas e eventos agendados em diversos estados.
A plenária de abertura da Semana Nacional terá como foco central o debate sobre os graves riscos que a atividade de mineração impõe à reforma agrária. A mesa de debates contará com a parceria da Fundação Rosa Luxemburgo, e o grupo articula a participação de representantes da sociedade civil e de órgãos federais.
Cantando a música “O sal da Terra” de Beto Guedes o encontro foi encerrado com uma avaliação coletiva, identificando pontos fortes e melhorias, além de reafirmar a comunicação como um espaço de luz e autonomia. Os participantes destacaram que a atividade fortaleceu o sentimento de pertencimento à Campanha, consolidou a articulação em rede e evidenciou que a comunicação deve ocupar um papel central na defesa dos povos do campo, das águas e das florestas.
“O encontro foi muito produtivo, ampliou minha visão sobre a importância da comunicação para garantir direitos e proteger nosso território, e me deu ferramentas e clareza para fortalecer a luta da comunidade de forma segura e correta”, afirmou a comunicadora Gisele Pereira da Teia dos Povos do Maranhão.
