Análise do Jubileu Sul Brasil mostra que R$ 213,5 bilhões – equivalentes a 10% dos juros da dívida de 2025 – seriam suficientes para construir moradias, ampliar creches e financiar combate ao feminicídio por décadas
Enquanto o governo federal gastou R$ 2,135 trilhões para o pagamento de juros e amortizações da dívida pública em 2025 – o equivalente a 42% de todo o orçamento executado –, mulheres brasileiras seguem enfrentando filas no sistema de saúde, déficit habitacional, desemprego e violências. Uma análise realizada pela Rede Jubileu Sul Brasil (JSB) revela o que seria possível fazer com apenas 10% desse montante (R$ 213,5 bilhões) se aplicados em políticas públicas voltadas às mulheres.
Os números dão ideia do quanto a dívida pública consome de recursos da população quando comparada aos orçamentos setoriais aprovados para 2025: 10% do gasto com a dívida equivalem a 86% de todo o orçamento da Saúde (R$ 247 bilhões) e a 91% de todo o orçamento da Educação (R$ 234 bilhões). O valor também representa 135% do programa Bolsa Família (R$ 158 bilhões) e 188% do Benefício de Prestação Continuada (R$ 113,6 bilhões).
Esse endividamento aprofunda desigualdades que recaem desproporcionalmente sobre as mulheres negras e periféricas chefes de família, as mães “solo”, principais usuárias dos serviços públicos e as mais afetadas pela ausência do Estado.
“Quando falamos de políticas públicas, estamos falando da necessidade de atender essa camada da população que historicamente vem pagando a conta. Pagando a dívida financeira cuidando dos outros por meio do trabalho precarizado”, alerta a economista e educadora popular Sandra Quintela, da coordenação do Jubileu Sul.
Moradia digna: com R$ 213,5 bilhões seria possível construir mais de 1,4 milhão de unidades habitacionais pelo programa Minha Casa, Minha Vida, considerando o custo médio de R$ 150 mil por moradia. Outra alternativa seria garantir subsídio integral de aluguel, de R$ 2.040 mensais (40m² a R$ 51 o metro quadrado), por cinco anos para aproximadamente 1,7 milhão de famílias.
Educação: os recursos seriam suficientes para criar 3,8 milhões de vagas em creches em tempo integral (considerando investimento médio de R$ 55 mil por vaga) impactando diretamente a vida de mães trabalhadoras. Outra possibilidade seria garantir o custeio integral do programa Pé-de-Meia por 17 anos.
Violência: com o mesmo valor, seria possível financiar por 42 anos consecutivos o Sistema Nacional de Enfrentamento à Violência (com base no PLP 41/26, que prevê R$ 5 bilhões para ações emergenciais). Além disso, daria para construir uma Casa da Mulher Brasileira em cada um dos 5.570 municípios brasileiros – atualmente existem apenas 11 unidades.

Metodologia e fontes
Os cálculos apresentados consideram o valor de R$ 2,135 trilhões referente aos gastos com juros e amortizações da dívida pública federal executados em 2025, conforme dados da Auditoria Cidadã da Dívida e do Tesouro Nacional Transparente.