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Pastorais sociais se reúnem em seminário nacional

Por Juce Rocha | Cepast-CNBB

A Comissão Epsicopal para a Ação Sociotransformadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (Cepast-CNBB) realizou, nos dias 19 e 20 de março, o Seminário Nacional das Pastorais Sociais. 
A atividade reuniu lideranças nacionais e bispos referenciais das pastorais sociais, na Casa Dom Luciano Mendes, em Brasília (DF). A atividade acontece anualmente como espaço de integração e desenvolvimento da atuação orgânica das pastorais e organismos, de modo que a dimensão social da fé seja compreendida e assumida por toda a Igreja.

“Nós temos, de fato, um tesouro. E esse tesouro não é para ficar guardado, é para ser colocado a serviço. Quando nós olhamos para a diversidade das nossas pastorais sociais, dos nossos organismos, vemos a presença da Igreja nos mais diversos ambientes e junto às mais diversas realidades de sofrimento, de exclusão, mas também de esperança do nosso povo”, afirmou o secretário-geral da CNBB, Dom Ricardo Hoepers, em sua saudação ao grupo.

“Muitas vezes, a nossa ação é pontual, ela é emergencial, porque a fome não espera, a sede não espera, a injustiça dói no momento em que ela acontece. Mas a nossa organização, enquanto pastorais sociais e organismos, nos permite ir além do assistencialismo. Ela nos permite fazer o caminho da conscientização, o caminho da organização popular e o caminho da transformação social”, disse o secretário-geral.
Dom Ricardo Hoepers, em sua saudação ao grupo. Fotos: Cláudia Pereira/Cepast-CNBB

 

Dom Ricardo ainda enfatizou que é importante perceber que nenhuma pastoral caminha sozinha na Igreja. “Cada pastoral, no seu campo específico — na saúde, na atenção com crianças e adolescentes, com a pessoa idosa, com migrantes, no sistema prisional, etc. — todas elas convergem para uma única missão: a defesa da vida em todas as suas instâncias. E essa defesa da vida é o que nos une e nos dá força para enfrentar os desafios, que não são poucos”, concluiu.

Avançar e transformar

“Como a nossa oração vira ação política, no sentido de provocar um efeito no mundo, na realidade? Quando é que a ação pastoral constrói impacto na realidade que a gente vive? E como é que a realidade social interfere na nossa ação pastoral?”. Com esses questionamentos, o jovem jornalista, multiartista, pesquisador na área da diversidade católica, Murilo Araújo, conduziu o momento de Leitura e Análise da Realidade, na programação do Fórum, a partir do viés dos impactos do machismo e do racismo estruturais. 
Murilo, que iniciou sua abordagem a partir das memórias de sua infância na cidade de Ipiaú, Sul da Bahia, destacou que foi no núcleo familiar que testemunhou a força da ação sociotransformadora da Igreja. “Sou filho de Neide, neto de Maria e bisneto de Cassiana. Essas mulheres foram muito importantes na minha trajetória, na minha formação de fé. Minha bisavó era uma benzedeira. Minha avó foi e ainda é uma agente das Comunidades Eclesiais de Base, foi da pastoral da saúde e teve uma trajetória muito bonita, muito importante. De sua prática de casa em casa, visitando pessoas doentes, ela acabou aqui em Brasília sendo delegada da Conferência Nacional de Saúde”, disse Murilo ao destacar como as ações pastorais carregam em si, pela sua fidelidade ao Evangelho, um compromisso com a vida. Por isso, não raro, incidem em políticas públicas. 
A assessora da Cepast-CNBB, Alessandra Miranda e abre a Leitura e Análise da Realidade com Murilo Araújo. Foto: Cláudia Pereira

 

A abordagem de Murilo colocou no centro da discussão dados recentes no Brasil, a partir das chaves do racismo e do machismo, revisitando também a nossa história colonial que ainda se impõe na cultura geral. 

“A maior parte da nossa história, até o momento, foi marcada pelo massacre, tráfico e exploração de pessoas de uma cor de pele específica. Essas dinâmicas ainda deixam efeitos,  sequelas e consequências na nossa realidade social. Não por acaso, no Brasil, as pessoas negras e indígenas estão em desvantagem em absolutamente todos os marcadores sociais: segurança, saúde, educação, moradia, acesso a emprego”, enfatizou. 

Pacto da branquitude

“Racismo não é só um ato de injúria, de xingar ou discriminar uma pessoa negra. Racismo é uma estrutura que está entranhada em todas as dinâmicas da nossa sociedade: na cultura, nas instituições, no nosso imaginário, na educação, na saúde, nas políticas públicas, na Igreja. É estrutural. E algumas pessoas, às vezes, tratam o racismo estrutural como um racismo mais brando, gourmet, soft, levinho”, disse  Murilo, assinalando este erro flagrante na sociedade. 
Ao abordar o cenário de racismo estrutural, Murilo destacou o “pacto da branquitude” e como a sociedade é responsável pelas mudanças que deseja se de fato quer realizar as reparações históricas necessárias e urgentes.
 “A gente precisa se responsabilizar sobre o nosso papel em se rever, rever nossos imaginários, rever  nossos vieses. Isso porque, aqui falando de um termo da professora Maria Aparecida Bento que, em sua tese de doutorado, olha para ambientes organizacionais e expõe o chamado pacto narcísico da branquitude, no qual as pessoas brancas estabelecem uma espécie de pacto silencioso de autoproteção e de autodefesa. Então, neste sistema, aquele chefe branco vai sempre promover um colega branco. Então, a gente tem que estar sempre ali investigando os nossos pactos, para não reproduzir esse processo, porque ele não é consciente é estrutural. Eu acho importante dizer isso porque a gente, às vezes, fala assim: ‘não, mas eu não sou racista’”, explica.

Cultura Red Pill

Ao conduzir a análise com o grupo na perspectiva do machismo, Murilo destacou que vamos encontrar vastos indicadores de que as mulheres também estão constantemente em situação de desvantagem.
“Os indicadores para mulheres e para pessoas que a gente chama de dissidentes de gênero, que não se encaixam nas relações de gênero da maneira como a sociedade espera, também têm indicadores bastante preocupantes e difíceis, que colocam para a gente alguns problemas específicos. A cada 24 horas, 12 mulheres foram vítimas de violência no ano passado. Violências de todo tipo, desde assédio, feminicídio, violência doméstica, violência moral”, revela ao destacar que em 2025, o Brasil registrou o maior número de feminicídios dos últimos dez anos. 
Murilo também compartilhou com o grupo muitos elementos da cultura contemporânea que estão contribuindo para o agravamento do impacto do machismo na sociedade. 

“Vocês já ouviram falar da cultura Red Pill? É um movimento de homens machistas, masculinistas, misóginos, que dizem que eles descobriram a realidade sobre a condição masculina e sobre a condição feminina. E esse movimento tem se espalhado, sobretudo, a partir de fóruns na internet, e cooptado muitos adolescentes. E nesses muitos casos que a gente viu recentemente, sobretudo no caso de violência envolvendo adolescentes, vários deles estavam, de alguma maneira, envolvidos em fóruns masculinistas dentro desse universo Red Pill”, constata. 

O termo Red Pill tem origem no filme Matrix (1999), em que o protagonista toma uma pílula vermelha (Red Pill) que dá a ele consciência da realidade. Na machosfera, descreve homens que acreditam ter “despertado” para uma suposta realidade em que as mulheres manipulam e exploram os homens. Pregam que o homem deve reassumir o domínio e manter a mulher submissa.
“A violência dos homens contra as mulheres é uma forma de exercício de poder em uma sociedade machista. É uma forma de afirmação da sua posição de superioridade dentro das estruturas de gênero. E a gente não pode deixar de pensar a esse respeito, sobretudo, dentro da Igreja, porque na Igreja quem tem mais poder são os homens. Onde estão as mulheres das nossas pastorais e das nossas paróquias?
Foto: Cláudia Pereira
Murilo também problematizou o fato de que, em muitas situações, os discursos de ódio contra as mulheres e a comunidade LGBT, são indevidamente justificados a partir de uma suposta cultura religiosa cristã. 
 “Vamos considerar o quanto o discurso cristão muitas vezes fomenta e favorece a morte e a violência contra mulheres, contra essas pessoas LGBT. Na verdade, boa parte da exclusão contra essas pessoas ainda hoje é justificada em cima de um discurso religioso. E aqui a gente tem, além do caso das mortes, a questão da influência sobre a  legislação. O Brasil continua sendo o país que mais mata pessoas LGBT no mundo. Vou deixar para vocês pensarem isso, sobre essa coincidência, que o país que mais mata pessoas LGBT no mundo também é o país mais católico do mundo. Uma coincidência infeliz, não é?”, conclui Murilo.

Novas vocações para a ação sociotransformadora

O seminário também foi marcado pelo aprofundamento do novo projeto da Cepast-CNBB em construção. Trata-se de uma iniciativa que tem o objetivo de reanimar as pastorais sociais e a Igreja como um todo, na dimensão social da fé. 
A princípio, o Projeto Novas Vocações para a Ação Sociotransformadora quer se articular, especialmente, em torno das juventudes, a partir de iniciativas pastorais, momentos formativos pautados na Doutrina Social da Fé, para os quais já está disponível a Coleção Ação Sociotransformadora, e em fase de edição, um novo livro de autoria do padre Aquino Júnior, que vai atualizar os conceitos e práticas da Igreja na sua dimensão social da fé.
Foto: Cláudia Pereira

 

Também estão previstas ações de comunicação, a partir da articulação das pastorais sociais e outras parcerias como a vida religiosa, organismos da CNBB, entidades de ensino e de comunicação com vínculos na Igreja, entre outros. Até agosto, o projeto estará em fase de elaboração e desenvolvimento para então ser compartilhado e implementado, especialmente, a partir das pastorais sociais e suas bases nas dioceses e paróquias. 

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