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01 de janeiro de 2023. Foto| Luciney Martins

 

 

“O amor constrói pontes e nós somos feitos para o amor político”  (Papa Francisco)

 

*Por Irmã Eurides Alves de Oliveira, ICM

 

Nos dias 05 a 07 de abril de 2024, tive a graça de participar do 12º Encontro Nacional do Movimento Fé e Política que aconteceu em Belo Horizonte – MG, com o tema: Espiritualidade libertadora: Encantar a política com arte, cultura e democracia, no qual, os/as mais de mil e quinhentos participantes num clima de alegria, amorosidade, celebração e lúcida reflexão, foram motivados e convocados a renovar o compromisso de fé e cidadania política, à luz do Evangelho da vida, reassumindo o projeto Encantar a Política como um itinerário místico-profético que emerge do Evangelho, como expressão de amizade e amor social.
A partir desta convocatória que se estende a todas as pessoas de bem, comprometidas com as grandes causas do Evangelho, com os princípios do Estado Democrático de Direito e com a vida do povo, sobretudo dos pobres e excluídos/as, me senti motivada a revisitar o capítulo V da Encíclica Fratelli Tutti, do nosso querido Papa Francisco, sobre a Melhor Política.  Após esta releitura, decidi fazer uso deste precioso espaço, para compartilhar com as nossas comunidades, grupos, pastorais, movimentos e pessoas de boa vontade, algumas pérolas que me surgiram a partir do texto.
Organizo estas “pérolas” em três tópicos que podem ajudar a nos encantarmos pela boa política e fazer dela uma práxis sociotransformadora da realidade em que vivemos; um guia orientador para tornar nossa fé uma práxis cidadã e a participação consciente na política como arte do bem comum.

 

  1. A boa política se orienta pelo amor. É a forma mais sublime e eficaz de viver a caridade, é amor político, amor social pautado na justiça social, construída a partir do trabalho digno e da inclusão social de todas/os, sobretudo dos mais frágeis e necessitados. Um amor que tanto no âmbito pessoal, quanto coletivo e institucional, nos compromete com a construção de um mundo ecologicamente correto, economicamente viável, socialmente justo e culturalmente diverso, que garanta a fraternidade universal desde as iniciativas e vivências locais de nossos territórios e comunidades, às instituições nacionais e internacionais. É um amor-ponte que possibilita a todos atravessar o rio (FT180), permitindo-nos avançar para uma ordem social e política, cuja alma seja a caridade social, e que, de forma poliédrica, avance para uma civilização do amor onde todos e todas com seus dons e possibilidades são chamados a construir um mundo novo (FT 166).

 

A política como amor social, deriva da prática libertadora de Jesus, é o mandamento do amor, no qual se resume toda a lei e profecia (cf.: Mt 22, 36-40). Um amor manifestado em gestos e opções de cuidado com a vida, sobretudo dos mais pobres. Um amor que se matura, superando o individualismo e tecendo processos coletivos nos quais cada pessoa é acolhida e amada como irmão e irmã que se unem constituindo-se povo de Deus, cidadãos e cidadãs de uma sociedade, na qual a amizade social possui força política sociotransformadora das situações de injustiças e desigualdades econômicas, sociais e culturais –“Reconhecer todo o ser humano como um irmão ou uma irmã e procurar uma amizade social que integre a todos não são meras utopias. Exige a decisão e a capacidade de encontrar os percursos eficazes, que assegurem a sua real possibilidade. Todo e qualquer esforço nesta linha torna-se um exercício alto da caridade” afirma o Papa Francisco.
 A caridade como coração da boa política, será sempre expressão de um amor preferencial e solidário com os últimos, os pequenos e frágeis. Portanto, o modus operandi da política pautada no amor social e político, só será eficaz se voltado para as políticas públicas de superação da pobreza e promoção da vida, dignidade, cultura e direitos dos pobres e da terra – “Não se pode enfrentar o escândalo da pobreza promovendo estratégias de contenção que só tranquilizam e transformam os pobres em seres domesticados e inofensivos. Como é triste ver que, por detrás de presumíveis obras altruístas, o outro é reduzido à passividade”.  Faz-se necessária a criação de canais de expressão e participação social, nos quais os princípios da cooperação, solidariedade, subsidiariedade sejam garantidos (FT 187).
Numa sociedade polarizada e marcada pela ‘política do ódio e da intolerância” como a nossa hoje, nós cristãos e cristãs, somos por mandato do Evangelho de Jesus de Nazaré, convocados/as com ternura e coragem, a fazer da caridade política uma profecia comunitária e social. “Na política, há lugar também para amar com ternura. «Em que consiste a ternura? No amor, que se torna próximo e concreto. É um movimento que brota do coração e chega aos olhos, aos ouvidos e às mãos. (…) A ternura é o caminho que percorreram os homens e as mulheres mais corajosos e fortes” (FT 194).
  1. Superar o desencanto com a política e assumi-la como uma dimensão indispensável de nossa vida em sociedade, para compreender que a Melhor Política é aquela que está a serviço do bem comum, que coloca no centro de seus projetos e ações, a pessoa humana, sua dignidade, necessidades e direitos. Ela ultrapassa os populismos, demagogias e a lógica mercadológica que instrumentaliza o povo e suas necessidades como moeda de troca (FT 176).
Aqui se encontra um critério fundamental, não vender o voto por qualquer recompensa que seja, pois o voto consciente é uma ferramenta indispensável para o exercício da boa política, e político que compra voto não é um político ético e confiável. Aqui está também, o convite para os cristãos e cristãs cada vez mais assumirem sua vocação política na igreja e na sociedade, e a partir da fé em Jesus e seu compromisso com o Reino de Deus, de Justiça e paz, ocuparem os espaços políticos e/ou apoiarem candidaturas comprometidas com a boa política, ou seja, pessoas comprometidas com a vida do povo.

 

  1. Projeto popular – democracia participativa e soberania popular como pilares para um projeto-nação, no qual o povo é uma categoria ampla, aberta, plural e portador de uma autoridade coletiva na construção da Boa Política com força transformadora da sociedade. Na contramão dos populismos, do fascismo bolsonarista, que degenera a categoria “povo’, domesticando-a cultural e politicamente a serviço de interesses ideológicos da elite dominante para manter-se no poder, a democracia participativa, é o caminho para a soberania popular, ‘governo do povo, com o povo e para o povo’, pois ela não se limita ao voto nas eleições, mas à participação popular ampla e permanente do povo – homens, mulheres de todas as idades, raças e culturas no destino da nação.

 

A democracia que constitucionalmente temos é frágil, de baixa intensidade e, nas últimas décadas, tem sido profundamente atacada. Neste horizonte da boa política, é urgente radicalizar nossa opção pela democracia, superando seu caráter apenas representativo e empenhando-se em construir desde nossas práticas locais, inciativas que alicercem uma democracia popular e participativa. Tarefa que requer a superação da apatia coletiva, da mentalidade de que a mudança vem do ‘planalto’ e apostar como num ato de fé, na força do ‘povo’ como sujeito de mudança e numa firme decisão de retomada do trabalho de base a partir do tripé:  formação, organização e mobilização das comunidades, grupos, pastorais e movimentos populares. Sobretudo, abrindo-se à escuta, acolhida e a participação criativa das juventudes, das mulheres e populações periféricas de múltiplos rostos. Este é um processo lento, difícil, porém necessário para a superação da crise democrática em que estamos imersos.

 

Urge acreditar e esperançar neste caminho e caminhada, como afirma o Papa Francisco: “A tarefa educativa, o desenvolvimento de hábitos solidários, a capacidade de pensar a vida humana de forma mais integral, a profundidade espiritual são realidades necessárias para dar qualidade às relações humanas, de tal modo que seja a própria sociedade a reagir face às próprias injustiças, às aberrações, aos abusos dos poderes econômicos, tecnológicos, políticos e midiáticos” (FT167). “A vida política autêntica, que se funda no direito e num diálogo leal entre os sujeitos, renova-se com a convicção de que cada mulher, cada homem e cada geração encerram em si uma promessa que pode irradiar novas energias relacionais, intelectuais, culturais e espirituais” (FT195).

 

Nesta direção, fica o convite para em mutirão, assumirmos a proposta do Mutirão pela Democracia e a continuidade do projeto Encantar a Política. Acesse a Revista Casa Comum que na sua oitava edição traz a segunda parte do projeto Encantar a Política com o tema: Reencantar a política: pela mobilização das urnas e das ruas. Um excelente subsídio para a formação de fé e política para que nossas comunidades participem ativamente das eleições municipais, mas sobretudo, para que se sintam vocacionadas a assumir a política como uma das formas mais preciosas de amizade social.

 

*Texto publicado originalmente no site Portal das Cebs 

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