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Reprodução ASA
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Nas últimas décadas, a sociedade civil se organizou. E, na luta contra a seca, conquistou importantes políticas públicas pelo direito à terra, de acesso às cisternas e fomento à agroecologia. Experiência pode inspirar outras regiões a construírem seus próprios caminhos…
Até 20 anos atrás, falar de tragédias climáticas no Brasil, era falar das “secas do Nordeste”. Aquelas imagens de solo tórrido, vacas magras, pessoas migrando, crianças morrendo, que tanto ocuparam os romances de Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, os poemas de João Cabral de Mello Neto, a pintura de Portinari, as músicas de Luiz Gonzaga, parecem ter saído de moda, embora a imprensa sudestina ainda goste de procurar cabelos em casca de ovo por aqui. Mas, o que foi que aconteceu?
Em duas décadas o Paradigma da Convivência com o Semiárido mudou o cenário e o imaginário da região semiárida brasileira. E não é só porque estamos povoados por usinas solares (sol é riqueza), ou torres eólicas (vento é riqueza) ou tomados por mineradoras (metais raros e terras raras são riquezas),  ou áreas irrigadas (água é riqueza), mas porque a organização da sociedade civil lutou pela terra e territórios dos povos, povoou o semiárido de cisternas para beber e produzir, gerou uma agroecologia baseada na biodiversidade da caatinga, produziu uma educação contextualizada em parceria com setores da Universidade, lutou por adutoras para os centros urbanos e assim mudou o cenário socioambiental da região e o imaginário dos próprios habitantes da região.
Visitei o sítio de uma senhora em Remanso, Bahia. Aplicou todos os princípios da Convivência em sua propriedade. Resultado, tem água, silagem, fenagem, cria cabras, outros animais, produz queijos, casa bela e grande de alvenaria em plena caatinga, todos os eletrodomésticos e carros na garagem. Quando lhe perguntei sobre uma imensa roça de palma ela respondeu: “só com a venda de ração de palma fiz 93 mil reais no ano passado”. Sim, qual trabalhador brasileiro tem essa renda?
O Brasil é dos predadores, escravistas, negacionistas e reacionários, nosso pecado original, ainda que façamos tantas lutas como essa da Convivência com o semiárido. Eles dominam o Congresso, vários cargos nos executivos estaduais e municipais, além de setores do próprio governo federal. O Rio Grande do Sul é apenas o começo das mudanças climáticas no Brasil, mas é também a cara dos negacionistas, embora figuras históricas do ambientalismo brasileiro sejam dali. Ainda virão grandes secas, grandes tempestades, a inundação das cidades baixas próximas da costa, a perda de lavouras (e aí agronegócio?), a perda de solos e poderosas ondas de calor, cada vez mais longas e mais intensas.
O Semiárido saiu na frente. A luta histórica aqui passou do combate à seca para a Convivência com o Semiárido, mas estamos sob a ameaça da desertificação. Estamos longe de chegar a um patamar de vida digno para todos os seus habitantes. Porém, aqui já temos um caminho para seguir e muitas políticas públicas já seguem seu traçado. As outras regiões do Brasil ainda terão que inventar o seu próprio caminho.

 

Fonte: Outras Palavras

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