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Na democracia cidadã, a resiliência, a escuta ativa e a justiça restaurativa, juntamente com uma linguagem não violenta, são fundamentais para resolver a violência estrutural do Estado.

Ouça o artigo 240523_003

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Por Padre Gianfranco Graziola, Missionário Consolata
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Em pleno século 21, na era da técnica, da inteligência artificial e de diversos recursos, estamos assistindo ao retorno intenso, sutil e sofisticado da ditadura. Esta nova forma de ditadura não ocupa mais ruas e praças com tanques e blindados, mas se manifesta através do paradigma tecnocrático, que atinge a esfera estrutural do Estado. Essa nova forma de controle mistura legalismo, normativismo e fundamentalismo de vários tipos, construindo o que se pode definir como antropoceno.
A Conferência de Aparecida, que recentemente completou dezessete anos, nos alertou sobre uma época de mudanças. O Papa Francisco, sendo o relator geral daquele momento, continua nos ajudando nesta reflexão como Bispo de Roma. Ele nos lembra constantemente sobre o modo desordenado de conceber a vida e a ação do ser humano, chegando ao ponto de contradizer e arruinar a própria realidade. Francisco afirma que a humanidade entrou em uma nova era, onde o poder da tecnologia nos coloca diante de uma encruzilhada. Somos herdeiros de dois séculos de grandes ondas de mudanças: a máquina a vapor, a ferrovia, o telégrafo, a eletricidade, o automóvel, o avião, as indústrias químicas, a medicina moderna, a informática e, mais recentemente, a revolução digital, a robótica, as biotecnologias e as nanotecnologias.
Tudo isso, continua Francisco, nos dá um poder tremendo, ou melhor, dá àqueles que detêm o conhecimento e, sobretudo, o poder econômico para desfrutá-lo, um domínio impressionante sobre o conjunto da humanidade e do mundo inteiro. No entanto, “a ciência e a tecnologia são um produto estupendo da criatividade humana que Deus nos deu”, mas, como Francisco insiste, elas precisam de instrumentos éticos que as orientem para não saírem do caminho do bem comum.
Não tenho dúvidas de que os processos neoliberais e ditatoriais do “estado mínimo”, com a privatização dos serviços sociais e a militarização da educação, como visto recentemente no Estado de São Paulo com a aprovação pela Assembleia Legislativa da implantação de núcleos militares nas escolas públicas, são a nova versão modernista e altamente sofisticada da ditadura. Mesmo em tempos de democracia, ela se camufla, renova e revitaliza em todas as estruturas, sejam civis ou religiosas.
Hoje, estamos diante de uma crise global que se manifesta de várias formas: natural, social, institucional e religiosa. Para enfrentá-la, o Papa Francisco sugere uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e cuidar da natureza. Ele enfatiza que se trata de um problema humano e social em sentido amplo e a diversos níveis, requerendo o envolvimento de todos.
Francisco não ficou apenas nas teorias e discursos. Ele propôs a economia de Francisco e Clara e o Pacto Educativo Global, convocando pessoas, instituições, igrejas e governos a priorizarem uma educação humanista e solidária como meio de transformar a sociedade. Isso contrasta fortemente com a militarização e o pensamento único que estão sendo implementados por vários governos.
Estamos, na realidade, observando um percurso político e social inverso. Por isso, os sete pontos do pacto educativo são extremamente atuais, lembrando-nos das necessidades vitais para a Amizade Social proposta por Francisco e retomada pela Campanha da Fraternidade de 2024: colocar a pessoa no centro de cada processo educativo; ouvir as gerações mais novas; promover a mulher; responsabilizar a família; abrir-se à acolhida; renovar a economia e a política; e cuidar da casa comum.
A síntese de tudo isso tem um só nome: democracia cidadã. Ela encontra nas formas de resiliência, escuta ativa e justiça restaurativa, mediante uma linguagem não violenta, os caminhos e as chaves para solucionar a violência estrutural do Estado. Em vez de oferecer Teto, Terra e Trabalho, o Estado oferece guerra, extermínio e morte. Essa realidade é especialmente sentida pelos povos nativos, das florestas, dos rios, dos terreiros, e pelas periferias existenciais da senzala sócio-política-religiosa que parece não ter fim.
Oxalá possamos entregar às novas gerações um mundo e uma civilização diferentes.

 

Editorial veiculado na Rede de Notícia Amazônica, no dia 23 de maio de 2024

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