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Incêndio na comunidade Campala, também conhecida como Chaparral, ao lado da comunidade Pau Queimado, na Penha, zona leste de São Paulo. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Incêndio na comunidade Campala, também conhecida como Chaparral, ao lado da comunidade Pau Queimado, na Penha, zona leste de São PAulo. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

A Campanha da Fraternidade de 1993 (CF/93) – lá se vão trinta anos – refletiu sobre o tema Fraternidade e Moradia. O lema, em forma de pergunta, interpelava: “Onde moras”? Convém reconhecer que se trata de uma interpelação que, a dizer a verdade, vinha de fora da multidão dos sem teto. Não partia daquele que habita as ruas e praças das cidades nem de quem sofre para arcar mensalmente com o aluguel. Partia, antes, daquele que dispõe de abrigo para si e sua família. Em outras palavras, a pergunta é feita desde o ponto de vista de quem, bem ou mal, pode contar com endereço fixo. Não seria exagero afirmar que a interrogação vinha de cima para baixo, não de baixo para cima. Como se fosse formulada desde uma porta, uma janela, um jardim, um pátio, uma sacada… ou uma Igreja.

Em resumo, a pergunta era feita a partir de um mundo exterior àquele onde mais precariamente se fazia sentir o problema real e concreto da moradia. Problema que, além dos sem teto, incluía os moradores das favelas, dos cortiços e das periferias mais longínquas. Entretanto, cabe esclarecer desde logo que a pergunta feita a partir de fora não invalida a preocupação e a solicitude pastoral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e da Igreja em geral. Ao contrário, já naquela época, em diversos regionais e dioceses do país, notava-se uma grande diversidade de iniciativas que tinham como horizonte o empenho por moradia para todo cidadão e cidadã. Uma rede plural e capilar de agentes e lideranças (embora nem sempre orgânica e de conjunto) fazia um enorme “trabalho de formiguinha”: eram bastante numerosos os movimentos de favela, razoavelmente ampla a presença nos cortiços, intensa e teimosa a luta por ocupação de terrenos e prédios vazios e ociosos. Experiências que, não custa acrescentar, se estendiam por boa parte do território brasileiro. Prova desse envolvimento eclesial, aliás, foi a própria realização da CF/93.

A sugestão mais apropriada seria “Onde morar”? Neste caso, a interpelação sai de dentro de quem vive na carne a dolorosa experiência de não poder revelar qualquer tipo de endereço.

Mas voltemos à pergunta. Formulada a partir do exterior, digamos, ela insinua que se tratava de fazer algo para os sem teto. Por isso, talvez valha a pena pensar como seria a interpelação se se tratasse de fazer algo com os sem teto. Provavelmente a sugestão mais apropriada seria “Onde morar”? Neste caso, a interpelação sai de dentro de quem vive na carne a dolorosa experiência de não poder revelar qualquer tipo de endereço. É o próprio sem teto, às vezes também sem pátria, sem raiz e sem destino, que se pergunta: onde encontrar um lugar que possa ser chamado de lar? O que significa, igualmente, onde encontrar o calor de uma família, de um grupo amigo e fiel? Preocupação essa que se converte em sinônimo de lugar, abrigo, refúgio, proteção. Um verdadeiro trampolim para recomeçar uma nova vida.

Enquanto a expressão “onde moras” representa de modo particular um olhar de alguém ou de algum grupo ou instituição que privilegia o fazer para, a fórmula “onde morar” leva em conta, diretamente, o olhar e o drama do sujeito sem casa, envolvendo junto com ele outros atores que haverão de privilegiar o fazer com. Nasce então um empenho comum, a construção partilhada de um caminho que conduza ao direito sagrado da moradia. A resposta à primeira interpelação tende a fazer o caminho de dentro para fora, no sentido inverso da pergunta; a resposta à segunda interpelação engendra-se conjuntamente, comprometendo todos as forças em jogo. Estamos aqui diante do conceito de sinodalidade, do qual tanto e tão insistentemente nos tem falado o Papa Francisco. Caminhar juntos em busca de soluções viáveis e concretas.

 

Por outro lado, se e quando a pergunta é feita a partir da própria vítima – onde morar? – esta última logo se sente chamada a ser protagonista do seu destino.

Quem sabe se a maneira de fazer a pergunta não poderá ter levado a um protagonismo secundário por parte dos envolvidos! Não é incomum pensar que estes últimos poderão ter sido fascinados, seduzidos e até mesmo iludidos com esse olhar que vem de fora, não raro semeando expectativas maiores que suas reais potencialidades. A esta altura, uma vez mais, convém não esquecer que isso não desmerece em nada a sensibilidade pastoral e a solidariedade da Igreja para com os pobres, excluídos e vulneráveis. Por outro lado, se e quando a pergunta é feita a partir da própria vítima – onde morar? – esta última logo se sente chamada a ser protagonista do seu destino. Em lugar de alguém cujo olhar se compadece e, mesmo sem o querer, acaba por despertar ilusões falsas, pelo contrário, prevalece a visão a partir do chão.

 

A ansiosa angústia de onde morar permeia todos os corações, faz “estremecer as entranhas” como a Jesus no Evangelho, descortinando um horizonte comum.

 

Com essa visão a partir de baixo, todos e todas sentir-se-ão convocados à ação. A ansiosa angústia de onde morar permeia todos os corações, faz “estremecer as entranhas” como a Jesus no Evangelho, descortinando um horizonte comum. Uma nova CF sobre o tema da moradia, se houver, certamente levará em conta essa perspectiva inclusiva, movendo as energias no combate ao escandaloso déficit habitacional do país.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, assessor do SPM – São Paulo, 17/12/2023

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