Francisco Orofino

Na casa de meu Pai há muitas moradias (Jo 14,2)

É muito comum, atualmente, falar em crises institucionais. Fala-se em crise da família, em crise das escolas, em crise das igrejas. Todo os espaços institucionais estão passando por um tempo de questionamento e de incredulidade. As campanhas para restabelecer a importância dos espaços institucionais surtem poucos efeitos e as estatísticas, de maneira alarmante, apontam sempre resultados negativos. Para muita gente hoje, esta crise difusa de espiritualidade desemboca em buscas por espaços sagrados que possam saciar a fome espiritual de todas as pessoas que anseiam viver mais profundamente o Evangelho de Cristo.
Podemos perceber sinais desta mesma crise em livros bíblicos. Havia uma disputa entre três espaços sagrados na época de Jesus. Segundo os saduceus, a Casa de Deus era o templo de Jerusalém. Encontrar Deus exigia a participação na liturgia do templo e na oferenda de sacrifícios dentro das regras de pureza estabelecidas pelo livro do Levítico. Para os fariseus, a Casa de Deus era a sinagoga. Encontrar Deus exigia a participação na liturgia da sinagoga, centrada na proclamação e no estudo da Palavra de Deus contida nos livros sagrados. Jesus e toda a sua atividade evangelizadora busca recuperar a casa da família como o lugar de encontro com Deus. Para encontrar Deus Jesus ensina a não sair de casa. Ou você encontra Deus na vivência familiar ou não encontrará em nenhum outro lugar. Para Jesus, a casa é um espaço sagrado. A primeira igreja sempre será a casa da família.
Podemos elaborar um conceito de igreja-casa buscando os costumes israelitas expressos em livros do Antigo Testamento. A família, ou a casa, tem um conceito bem diferente do nosso. Esta palavra casa se refere mais ao clã, às pessoas que vivem congregadas nas várias moradias que formavam uma casa. Era muita gente. Só a casa de Abraão reunia cerca de 318 homens aptos para a guerra (cf. Gn 14,14). É neste espaço que, principalmente na época dos patriarcas e das matriarcas, que se realiza a vida social e religiosa destas pessoas. A principal liturgia comunitária, cimentando as relações familiares, era a celebração da Páscoa. Até hoje as famílias judias celebram a Páscoa em suas moradias.
Assim, Josué exprime bem esta ideia de casa-igreja quando afirma: Quanto a mim e à minha casa, serviremos a YHWH (Js 24,15). Esta frase, que os judeus afixavam nos umbrais de suas moradias, ainda hoje acontece as várias famílias e lares aqui no Brasil, principalmente em famílias evangélicas.
Mergulhado em sua cultura, Jesus cresceu numa casa de família. Em suas andanças, se hospedava, noites e dias, em casa de família de amigos e amigas. Desta forma Jesus passa o ensinamento sobre o Reino de Deus. O reino é uma família, a família de Deus (cf. Mc 10,29-30). A pregação de Jesus busca reconstruir a casa, o clã familiar. Por isso, a imagem de Deus que Jesus mais enfoca não é a imagem de rei, mas a imagem de pai, o nosso Pai. E a ideia daquilo que nós chamamos de “céu”, para Jesus, é a grande casa do Pai, onde haverá uma moradia para qualquer pessoa que assuma este projeto evangélico de Vida em plenitude.
No evangelho de Marcos Jesus evangeliza a partir de uma casa. Pela gramática do texto, dá para deduzir que esta casa era a casa do próprio Jesus. Em Cafarnaum, ao saber que Jesus estava em casa, a multidão acorre a ele pedindo saúde e bênçãos (Mc 2,1-2; 3,20). É nas casas que Jesus faz a formação de seus discípulos e discípulas (cf. Mc 7,17; 9,28). É significativo que Jesus tenha celebrado sua última ceia numa casa escolhida para a liturgia, onde havia “uma grande sala mobiliada e pronta” (cf. Mc 14,15). Segundo este mesmo evangelho, o Ressuscitado se revela na casa, enviando seus discípulos em missão (cf. Mc 16,14-20).
Nos escritos paulinos este conceito de igreja-casa se torna mais claro. O casal Priscila e Áquila, muito bem conhecidos em Atos dos Apóstolos, teve destacado empenho missionário. Tendo se convertido ao Evangelho ainda em Roma (At 18,2), transformaram sua casa em igreja. Ao fugirem para Corinto, abriram lá uma nova casa e, ao mesmo tempo, uma nova igreja. Paulo se hospeda nesta casa-igreja por mais de ano. Mais tarde, Paulo percebe a importância da cidade de Éfeso. Ele pede então que o casal se transfira para Éfeso. Lá chegando abrem uma nova casa e uma nova igreja. E lá Paulo se hospeda novamente (cf. 1Cor 16,19).
É evidente a importância da casa como espaço sagrado no surgimento do cristianismo primitivo. Este conceito, ao longo da história, foi se diluindo pela imposição do modelo institucional e eclesiástico das paróquias e dioceses. Hoje, apesar das imposições da grande Igreja, estão sendo recuperadas práticas eclesiais familiares tão antigas quanto o próprio cristianismo.
A igreja-casa é um conceito amplo que não se confunde com a casa ou com uma determinada família. Vemos hoje que nas periferias urbanas numa mesma casa se reúnem várias famílias vizinhas constituindo-se uma verdadeira Igreja. Muitas destas experiências congregam famílias pentecostais evangélicas empenhadas em trabalhos assistenciais para as pessoas carentes de sua rua ou de seu bairro. O que une estas pessoas não são os laços naturais familiares, mas sim uma convocação do Evangelho de Jesus.
No trabalho evangelizador de Paulo e de sua equipe missionária, etas igrejas-casa eram depositárias de toda a eclesialidade. Nestas casas se partilhava a Palavra e celebravam o batismo e a ceia comunitária. Mas ali também se partilhava os bens necessários para a vida de todos e todas. Era o espaço sagrado básico para todas estas pessoas.
No período após o Concílio do Vaticano II (1962-1965), uma nova forma de ser Igreja despertou a participação de milhões de pobres deste continente latino-afro-americano. Chamou a atenção do mundo inteiro esta maneira de realizar o Reino de Deus em pequenas comunidades. As Comunidades Eclesiais de Base.
Nenhum documento do Vaticano II menciona esta experiência de igrejas-casa. Tampouco o Código de Direito Canônico se dá conta de que estas experiências eclesiais existem. Aliás, nestes documentos se percebe bem a dicotomias entre os conceitos de família e de Igreja. Mas os escritos do Novo Testamento falam mais alto que os documentos eclesiásticos. Neles encontramos abundantes fundamentos para uma eclesiologia de base, principalmente para as igrejas domésticas, ou igrejas da casa, ou simplesmente, casas-igrejas. É um novo modelo eclesial, baseado nos círculos de amigos e de vizinhos, favorecendo uma reaproximação do conceito bíblico de casa. As pessoas de hoje, como as pessoas de outrora, são carentes de afetos e de presenças próximas.
Precisamos de apoio e de segurança. Sabemos que só as relações humanas próximas e imediatas podem satisfazer essa necessidade. As inúmeras pequenas comunidades pentecostais espalhadas pelas periferias urbanas das grandes cidades do Brasil têm muito a ensinar nossa grande Igreja a evangelizar a partir das casas-igrejas.

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