“No coração sensível das comunidades, as iniciativas sociais se tornam verdadeiras experiências samaritanas.”

As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) empenhadas em ser espaço de fé e de vida plena nas realidades sociais mais vulneráveis, trazem na sua história iniciativas pastorais e organizativas em prol das pessoas empobrecidas e sofredoras. Não é exagero dizer que as grandes pastorais sociais e iniciativas solidárias foram se articulando pela necessidade concreta das comunidades e por sua leitura crítica da realidade junto ao povo que mais clama por atenção e cuidado. No coração sensível das comunidades elas se tornam verdadeiras experiências samaritanas.
O cuidado com as crianças famintas e abandonadas fez nascer as Pastorais da Criança e a do Menor. Da mesma forma, a preocupação com as exclusões sociais vivida pelas mulheres, deu origem à Pastoral da Mulher Marginalizada. As fragilidades da saúde do povo provocaram a organização de uma pastoral de iniciativas concretas, como a visita aos doentes, na criação hortas e farmácias fitoterápicas.
Muitas dessas pastorais foram estimuladas também por Campanhas da Fraternidade. Assim a Pastoral da Terra, a Operária e tantas outras se consolidaram com a constituição de equipes das comunidades locais. Embora a igreja tenha subsídios fundamentados na Doutrina Social da Igreja, no Compendio do Vaticano II, nas Conferências Latino-americanas, nas declarações da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil entre tantos. O ponto de partida sempre foi a aproximação das comunidades de fé com a realidade que às circunda e interfere.

“É preciso reacender a chama da dimensão sociotransformadora nas comunidades”.

Há pastorais sociais que nasceram de agendas macros, abordando realidades por vezes, ainda invisíveis nas comunidades, mais por incompreensão que por negação. É o caso das pastorais da Aids, Carcerária, Afro e da Sobriedade. Ao abordarem suas problemáticas, elas fazem emergir  novas fronteiras missionárias para as comunidades de base.
Hoje, novas demandas sociais ganham visibilidade, no chão da vida, como a inclusão de pessoas neurodivergentes e as pessoas com deficiência, a realidade de novos migrantes e refugiados. Como a realidade concreta é dinâmica,  o reconhecimento de novas metodologias pastorais exige estratégias de ação em transformação. Não dá para dizer que alguma pastoral social é dispensável, pois na contradição do mundo presente todas as pautas ainda são urgentes e necessárias.

 

Pastoral – Recife (PE) – Foto: Cláudia Pereira

O desafio caminho para o despertar vocacional

É preciso reacender a chama da dimensão sociotransformadora nas comunidades. Uma comunidade pode até possuir uma rica liturgia, estudos bíblicos bem estruturados e processos catequéticos dinamizados. No entanto, se não estiver aberta aos debates sobre as realidades sociais — inclusive os mais acalorados —  e ao sofrimento das pessoas ao seu redor, corre o risco de se tornar estéril. Essa postura acaba por matar a profecia e a coragem de assumir a luta por transformações sociais, perdendo o verdadeiro aroma do fiel seguimento a Jesus de Nazaré.
O sintoma  desse distanciamento pode ser percebido na ruptura das juventudes das periferias com o ambiente eclesial tradicional. Para tanto, como Igreja orgânica, precisamos reconhecer a necessidade de uma nova animação pastoral em vista de Comunidades verdadeiramente comprometidas com suas realidades, criando uma ação sociotransformadora revigorada. Neste sentido, fruto da Semana Social Brasileira, a Pastoral da Moradia e Favela é um exemplo de nova possiblidade de encontro e diálogo com a realidade.

 

“O ‘casamento’ entre Pastorais Sociais e CEBs é a oportunidade para uma nova primavera de uma Igreja verdadeiramente em saída”.

O caminho proposto é o que estamos chamando de um despertar vocacional, em vista de uma agenda missionária nas Comunidades Eclesiais, desafiando-as a novas semeaduras pastorais. A partir das necessidades práticas, e um reflorescer das históricas pastorais sociais, que urgem por novos agentes e novos interlocuções com as realidades concretas. Uma Comunidade Eclesial de Base sem uma pastoral social pensada, estruturada e atuante, pode estar doente, morrendo ou abandonando sua origem. Perde o dom vocacional comunitário e perdendo o sentido e sendo substituída por outras práticas eclesiais menos inseridas na vida do povo, mas emocionalmente envolvente para as pessoas em sua volta.
Este caminho vocacional e missionário necessita de boa leitura situacional a partir dos contextos das comunidades, unida a uma sensibilidade dialógica com as novas gerações que estimule o protagonismo da juventude. Requer, ainda, senso de organização prática e processos formativos dinâmicos e a construção de uma   incidência social bem planejada. Além disso,   é fundamental  uma linguagem mística que fortaleça o seguimento à Jesus Cristo e  identidade eclesial nas bases, creio que é a identidade das CEBs que colabora para este itinerário espiritual e de pertença comunitária.
Não há maior atualidade teológico-pastoral que a proposta das CEBs, dentro do contexto presente da Igreja. Embora alguns a consideram desatualizada e que é coisa de décadas passadas. A verdade é que os discursos atuais sobre sinodalidade, pequenas comunidades missionárias, liturgia e piedade popular constituem a busca por uma resposta que a Igreja do Brasil e da América Latina já encontrou: as CEBs. Elas representam a melhor expressão de comunhão, participação e abertura missionária. No entanto, o medo da aproximação às realidades concretas do povo — com as dores e sofrimentos que as levaram a se aproximar das lutas e organizações sociais e políticas — ainda ronda a mente de muitos dentro de nossa Igreja. Contudo, estar com o povo e engajar-se em suas lutas é o desfecho inevitável para quem deseja assumir um real seguimento ao Evangelho.
É por isso que o “casamento” estratégico entre as organizações de Pastorais Sociais e as Comunidades Eclesiais de Base é uma oportunidade de forte abertura para o Espírito restaurador de uma “nova primavera” e de uma Igreja verdadeiramente em saída. Digo isso não por haver uma ruptura assumida, mas por entender que precisamos somar forças nesta nova conjuntura eclesial e social em que vivemos. Podemos pensar, inclusive, em um mutirão comunitário para a instalação de novas pastorais sociais, envolvendo as novas gerações — crianças, jovens e famílias que se aproximam das comunidades e que ainda não beberam da essência das CEBs. Cabe, também, projetar uma agenda comunicacional, construindo uma Pastoral da Comunicação Comunitária e Popular com destaque para as ações sociais e solidárias.
Por fim, é preciso sair do “inverno pastoral” que nossos setores progressistas da Igreja foram jogados, temos o legado deixado pelo Papa Francisco com o seu frescor de um novo tempo, para tanto precisamos levar a sério a ideia de que “ninguém solta a mão de ninguém”.

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