Impressiona-me profundamente o fato de que, quando um bispo da Igreja Católica — ou qualquer de seus membros — coloca o dedo nas mazelas e nas feridas sociais de nossa sociedade, seja tratado como incompetente ou leviano e até considerado, por outros colegas e cristãos, como comunista, sofrendo, em muitos casos, uma autêntica linchagem pessoal, pública e moral.
Parece ainda vigorar em nosso imaginário simbólico a convicção de que o sagrado, o religioso, seja uma fórmula, um enunciado, uma ideia que funciona como anestésico e até como uma receita capaz, num passe de mágica, de cancelar nossos problemas, dar respostas imediatas e fazer desaparecer todas as doenças, sejam elas psíquicas, físicas, sociais ou espirituais.
Um exemplo evidente disso é o próprio tempo da Quaresma, que por alguns é visto simplesmente como uma série de práticas individuais a realizar para que eu me sinta melhor, excluindo qualquer mudança que transforme a comunidade e a coletividade.
A esse respeito, o Papa Leão nos recorda algumas atitudes concretas.
Escutar a Palavra. Na liturgia, ela nos educa para uma escuta mais verdadeira da realidade. Entre as muitas vozes que atravessam a nossa vida pessoal e social, as Sagradas Escrituras nos tornam capazes de reconhecer aquela que brota do sofrimento e da injustiça, para que não fique sem resposta. Entrar nessa disposição interior de receptividade significa deixar-se instruir hoje por Deus para escutar como Ele, até reconhecer que a condição dos pobres representa um grito que, na história da humanidade, interpela constantemente a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e econômicos e, sobretudo, a Igreja.
O jejum. A abstinência de alimentos é um exercício ascético muito antigo e insubstituível no caminho da conversão. No entanto, Leão XIV nos recorda que também é essencial a abstinência de palavras que ferem o próximo. Comecemos por desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes, ao juízo temerário, ao falar mal de quem está ausente e não pode se defender, às calúnias. Em vez disso, esforcemo-nos para medir nossas palavras e cultivar a gentileza: na família, entre amigos, nos locais de trabalho, nas redes sociais, nos debates políticos, nos meios de comunicação e nas comunidades cristãs. Assim, muitas palavras de ódio poderão dar lugar a palavras de esperança e de paz.
Como comunidade. Trata-se de um caminho partilhado, no qual a escuta da Palavra de Deus, assim como do clamor dos pobres e da terra, se torne forma de vida comum, e o jejum sustente um verdadeiro arrependimento. Nesse contexto, a conversão diz respeito não apenas à consciência individual, mas também ao estilo das relações, à qualidade do diálogo, à capacidade de se deixar interpelar pela realidade e de reconhecer o que realmente orienta os nossos desejos, tanto nas comunidades eclesiais quanto na humanidade sedenta de justiça e reconciliação.
A constatação é simples: como pessoas e como sociedade, nas diversas expressões humanas, sociais e religiosas, todos somos chamados a cuidar com responsabilidade de nossa dimensão política e, com ela, da casa comum. Isso significa não transformar a vida pública em um museu de ideias, de estereótipos literários ou humanísticos atrás dos quais escondemos nossas intolerâncias fundamentalistas e nossos medos revestidos de hipocrisia e aparência. Certamente, esse não é o sentido da vida em todas as suas formas. Como afirmava Papa Paulo VI, a política, entendida como busca do bem comum, é uma das mais altas formas de caridade.
Oxalá muitos profetas de nosso tempo levantem a voz para recordar que, mesmo na noite, há sempre uma sentinela que nos convida a caminhar em direção à luz.