• Home
  • >
  • Gaël Giraud reflete sobre Ecologia Integral em tempos de colapso ambiental

Gaël Giraud reflete sobre Ecologia Integral em tempos de colapso ambiental

Economista e jesuíta francês ministra videoconferência nesta terça-feira (28), no Ciclo de debates promovido pela Comissão para Ecologia Integral e Mineração da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CEEM-CNBB), em parceria com Instituto Humanitas Unisinos (IHU).

Por Patricia Fachin | IHU

“Há 40 anos há um movimento de absolutização da propriedade privada. Pode-se privatizar tudo: o clima, a saúde, o corpo das mulheres. (…) O desafio para nós é como limitar a propriedade privada, por exemplo, para enfrentar o desafio ecológico. Por isso, precisamos pensar, dentro da tradição cristã, na possibilidade de que a propriedade privada não seja abençoada por Deus”. 
À primeira vista, a declaração do economista e jesuíta francês Gaël Giraud pode ser mal interpretada até mesmo entre os cristãos. Leituras apressadas da teologia política formulada por ele correm o risco de acusá-lo de comunista, tese que não se sustenta, dado o enraizamento de sua perspectiva nas Sagradas Escrituras.
Entretanto, uma pergunta nesse sentido já lhe foi dirigida diretamente por Marco Ventura, professor de direito canônico e eclesiástico da Universidade de Siena: “Tem certeza de que sua ‘teologia política’ não é um convite ao comunismo?”
A questão deu a Giraud a oportunidade de explicitar a tese dos bens comuns e dissipar confusões teóricas mescladas com posições político-partidárias. O economista tem propagado esse debate em diversas universidades, institutos e organismos governamentais e não governamentais. “O comunismo”, esclareceu, “é a absorção da sociedade como um todo na esfera pública. Tudo se torna público. É Herodes. É o totalitarismo. Os bens comuns são uma terceira via. Não é o Estado que é proprietário. O comunismo não tem nada a ver. As comunidades de energia que visitei na Itália não são comunismo. São comunidades da sociedade civil que reúnem determinados recursos. O verdadeiro ator da res communis é a sociedade civil, não o Estado. Qualquer um que me criticasse por apoiar um cristianismo criptocomunista não estaria entendendo justamente a questão. O que proponho é uma terceira via: nem tudo privado, nem tudo público, mas a sociedade civil na linha de frente para a invenção dos ‘comuns’”.
Os bens comuns, segundo o economista, são aqueles compartilhados por todos: os recursos naturais, a água, a terra, as florestas, os alimentos, os oceanos, a energia. A fundamentação dessa posição não emerge da economia, da sociologia, da matemática ou da filosofia, mas da teologia. “As Escrituras não condenam a propriedade privada em si, mas a apropriação exclusiva que nega o acesso a bens fundamentais aos mais necessitados. Deus criou o mundo como um dom gratuito para todos, não como um privilégio para poucos. Quando a propriedade privada se torna absoluta, desumaniza e destrói a fraternidade”, observa. 
Entre as referências bíblicas constantemente citadas por Giraud, destaca-se o livro dos Atos dos Apóstolos, onde o evangelista Lucas descreve a Igreja primitiva. No texto, menciona o economista, sobressai a ideia de que os primeiros cristãos “colocavam tudo em comum”, “compartilhavam tudo”. “Esse aprendizado de compartilhar é, em última análise, o aprendizado do compartilhamento do poder com Deus. E é também o aprendizado da democracia, das regras da convivência que nos damos, mas que também são submetidas à deliberação”, pontua.

Leitura sistêmica da ecologia integral

Gaël Giraud é o próximo palestrante do Ciclo de estudos “Ecologia Integral em tempos de colapso ambiental. Profecia, resistência e propostas pastorais”, promovido pela Comissão para Ecologia Integral e Mineração da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em parceria com Instituto Humanitas Unisinos – IHU. O professor do Programa de Justiça Ambiental da Georgetown University, nos Estados Unidos, apresentará uma leitura sistêmica da ecologia integral em tempos de colapso ambiental. O evento será aberto ao público para assistir na Página inicial IHUYouTubeFacebook e Twitter nesta terça-feira (28), às 10h.
A programação completa do ciclo e as demais conferências estão disponíveis aqui.

O Ciclo de estudos está refletindo sobre “a conexão entre o extrativismo predatório, que atenta ao equilíbrio da Ecologia Integral, e os graves desafios globais, como as guerras entre os povos e com a natureza, a crescente voracidade energética e a irrupção da inteligência artificial”. 
Atento aos efeitos dessa realidade, no mês passado o Vaticano lançou a “Plataforma de Desinvestimento em Mineração”, que incentiva instituições católicas a não investirem no setor minerador, que tradicionalmente tem gerado inúmeros impactos socioambientais nas regiões em que atua. A iniciativa está baseada nos estudos desenvolvidos pela rede ecumênica Igrejas e Mineração da América Latina, que congrega comunidades cristãs, religiosos, religiosas, leigos, leigas e bispos que acompanham as violações de direitos humanos provocados pela mineração nos territórios latino-americanos. “Nossa opção preferencial pelos pobres e pela defesa da criação não pode se deixar intimidar pelas seduções do dinheiro”, disse dom Vicente de Paula Ferreira, bispo da diocese de Livramento de Nossa Senhora, na Bahia, e membro da Comissão Especial para a Ecologia Integral e Mineração.

Tags:

Veja mais

  Por Juce Rocha Carta assinada por Dom Vicente Ferreira, bispo de Livramento de Nossa Senhora (BA) e presidente da Comissão para Ecologia Integral
Para a Rede, decisão da Justiça de MG ignora marcos civilizatórios e fragiliza o Sistema de Garantias ao admitir “capacidade de consentir” de uma
Relatório da Comissão Pastoral da Terra (CPT) aponta paradoxo na violência agrária: enquanto o volume total de ocorrências diminuiu, a letalidade e o trabalho