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Tráfico de Pessoas: Comissão da CNBB rompe teias invisíveis em defesa da vida

Em encontro presencial, a Comissão de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas da CNBB faz balanço de uma década de atuação, projeta novas ações e aposta na transversalidade para romper o silêncio que envolve o crime

Entre documentos, subsídios e banners expostos sobre a mesa, a imagem de Santa Bakhita ao centro zelava  silenciosamente pela causa. Foi sob essa atmosfera de partilha, memória e caminhos percorridos que a Comissão Episcopal Especial de Enfrentamento ao Tráfico Humano da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CEETH-CNBB) esteve reunida, nos dias 10 e 11 de junho, na Casa de Encontros Dom Luciano, em Brasília. O objetivo: realizar um amplo balanço de suas atividades e traçar as diretrizes estratégicas para o futuro.

 

O encontro, que dedicou seu primeiro dia exclusivamente à avaliação de uma década de caminhada, reavivou o compromisso histórico do grupo e reforçou o lema que guia seus passos: “Tráfico de Pessoas Existe, e enfrentá-lo é a nossa missão”. Ambos os dias foram iniciados com a celebração da missa, presidida pelos bispos da Comissão.

 

A reunião contou com a presença do presidente da CEETH, Dom Adilson Busin; dos bispos referenciais Dom Evaristo Spengler e Dom Plínio José Luz; da secretária-executiva da Comissão e assessora da Cepast, Alessandra Miranda; e da Ir. Eurides Alves de Oliveira. O dia inicial girou em torno dos avanços e desafios da comissão, destacando os eixos de formação, incidência política, mobilização social e o papel estratégico da comunicação.

 

O primeiro dia de encontro os membros da Comissão analisaram os caminhos percorridos de 10 anos. Foto: Cláudia Pereira

 

 

“Neste trabalho de enfrentamento ao tráfico de pessoas, a nossa missão vai além de mobilizar: é denunciar”.

O primeiro dia também foi marcado pelas presenças de Dom Ricardo Hoepers, secretário-geral da CNBB; do Padre Tiago Ávila Camargo, subsecretário adjunto de Pastoral; e do Padre Edinho Thomassim, assessor da Cepast, que contribuíram com iluminações teológicas e pastorais.

“Hoje, a Comissão conta com membros que são referências técnicas no tema. Temos a humildade de quem caminha junto, mas também a autoridade de quem estuda a fundo a realidade do tráfico de pessoas”, pontuou Alessandra Miranda. A assessora destacou a importância de a CNBB ajudar a dar visibilidade a esse corpo técnico e celebrou o alcance dos trabalhos e produções da Comissão: “Estamos muito felizes com a repercussão do documentário ‘Marcas da Fronteira’. O convite do Tribunal Regional do Trabalho de Santa Catarina para apresentação do filme para seus magistrados é o reconhecimento técnico e eclesial de um trabalho comprometido”.

 

Ao ouvir atentamente o histórico e os eixos apresentados, Dom Ricardo acompanhou de perto a trajetória da Comissão e a realidade complexa e transversal do tema, cujos impactos crescem diante de crises globais como guerras, fluxos migratórios e mudanças climáticas. Por se tratar de um crime silencioso que faz vítimas diariamente, ele reforçou a importância da sinergia com outros setores da Igreja.

 

“Neste trabalho de enfrentamento ao tráfico de pessoas, a nossa missão vai além de mobilizar: é denunciar. Apesar dos desafios, entre eles a sustentabilidade, fazemos a articulação com órgãos governamentais. Destaco a importância do material formativo e informativo, que tem ampliado nosso alcance na sociedade. Seguimos conscientes da necessidade de fortalecer nossa atuação”, afirmou Dom Adilson.

 

Dom Evaristo Spengler complementou a reflexão: “A comissão segue seu trabalho orientada pelos documentos da Igreja e pelo legado do Papa Francisco, especialmente sobre o tráfico humano, um tema difícil e muitas vezes invisível, mas presente em várias regiões. Precisamos continuar atentos e atuantes”.

 

Dom Ricardo Hoepers acolheu os desafios mapeados e orientou sobre a necessidade de alinhar as redes que atuam na temática. Ele afirmou, ainda, que o combate ao tráfico pessoas caminha lado a lado com pautas socioambientais — como a questão da mineração — e com a agenda migratória.

“O trabalho desta Comissão é importante em razão da integralidade do tema; é preciso ouvir a todos para conhecer as realidades”, pontuou o secretário-geral, demonstrando atenção aos avanços.

O Padre Edinho Thomassim, em sua intervenção, destacou a urgência de integrar o tema ao carisma das demais pastorais, evitando atuações isoladas. Para ele, falta ainda uma cultura vocacional voltada às pautas sociais. “É Preciso fortalecer uma rede sociotransformadora. Debater e integrar temas como tráfico de pessoas, ecologia, racismo e mineração, buscando estratégias nacionais sem criar mundos separados”, afirmou. Como desdobramento prático, foram sinalizados um futuro encontro de bispos e projetos voltados à sensibilização.

 

“Quando a gente passa, deixa uma marca. Isso é muito bom”, disse Irmã Rose Bertoldo que participou por um momento de forma virtual. Foto: Cláudia Pereira

Uma história tecida através dos eixos

Celebrar dez anos significa reconhecer uma trajetória que exige compromisso e integração. Apesar de enfrentar o desafio do pouco reconhecimento em alguns regionais, a CEETH segue firme. Nesta década, a Igreja no Brasil assumiu uma atuação pioneira, expandindo o olhar para temas correlatos como migração, abuso infantil e trabalho doméstico, contando com parceiros históricos como a Rede Um Grito Pela Vida, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e a Asbrad (Associação Brasileira de Defesa da Mulher, da Infância e da Juventude).

 

No eixo da Formação, a comissão realizou 10 seminários regionais de nível nacional. Embora a meta inicial fosse de 19, o saldo é considerado positivo. Contudo, o grupo reconhece que o modelo atual depende de recursos externos expressivos. O desafio agora é desenhar formatos mais simples, permanentes e sustentáveis, incentivando as próprias dioceses a assumirem o protagonismo e os meios para a realização das ações.

 

“A Diocese de Picos (PI) é um exemplo desse processo. Realizaram dois processos formativos e agora organizam uma avaliação. É uma conquista”, frisou a Ir. Eurides Alves. Dom Plínio José Luz reforçou a necessidade da continuidade: “Precisamos de ações permanentes para enfrentar os impactos sociais, pois o sofrimento das pessoas é generalizado”.

 

Ainda na formação, o destaque foi o Caderno Na Trilha do Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, produzido em português e espanhol, de excelente aceitação em oficinas. O objetivo agora é fazer com que este e outros subsídios (como folders) cheguem de forma capilarizada a catequistas, escolas e paróquias. Pretende-se, também, ampliar os materiais em formato digital para o público jovem por meio de rádios, audiotecas e cartilhas.

 

No eixo da Incidência Política, a CEETH mantém estreita aproximação com órgãos públicos, como o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), tendo apresentado propostas importantes para o IV Plano Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas. Já no eixo da Mobilização, estuda-se a expansão do calendário fixo da temática, envolvendo inclusive reflexões litúrgicas.

 

Membros da Comissão CEETH reunidos na Casa Dom Luciano em Brasília.

 

Comunicação como eixo transversal e estruturante

A comunicação foi apontada como um elemento fundamental que perpassa todos os eixos da comissão, essencial para tirar a temática da invisibilidade. “A nossa Comissão é construída com base na estratégia da comunicação. Isso, por si só, já é um grande avanço”, destacou Alessandra Miranda.

Atualmente, a CEETH mantém uma audioteca com audiorreportagens no Spotify, promove campanhas online e articula parcerias com emissoras de rádio de inspiração católica. Como próximo passo, o grupo propôs encontros virtuais com comunicadores para qualificar a cobertura e o cuidado sensível com as denúncias.

 

Um dos maiores motivos de orgulho desses dez anos é o documentário “Marcas da Fronteira: O Tráfico de Pessoas existe e é visível”, que tem servido como potente ferramenta de conscientização. A obra obteve excelente aceitação, tornando-se, inclusive, material de formação para magistrados do Tribunal Regional do Trabalho de Santa Catarina (TRT-12ª Região).

Diante do desconhecimento que muitas instituições ainda têm sobre a gravidade do tema, os bispos preparam uma carta institucional. O objetivo é fazer o documentário ecoar em outras instâncias jurídicas, superando a fragmentação entre os órgãos públicos e inserindo o material em espaços estratégicos de formação e informação.

 

“A nossa Comissão precisa ser mais reconhecida em âmbito nacional pela importância de sua missão”

Rompendo a invisibilidade

Ao final do encontro, os membros da CEETH avaliaram que o tráfico humano permanece como uma realidade invisível, que esbarra na resistência da sociedade, e da própria Igreja em debater o tema abertamente. O trabalho, classificado como árduo e emocionalmente desafiador, ganha fôlego em datas de forte impacto social. Entre elas, destacam-se o 28 de janeiro (Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo), o 8 de fevereiro (Dia Mundial de Oração e Reflexão contra o Tráfico de Pessoas e dia de Santa Bakhita) e o 30 de julho (Dia Mundial de Combate ao Tráfico de Pessoas, marcado pela Campanha Coração Azul da ONU), a última é vista como oportunidades fundamentais para realizar a incidência política local e nacional.

 

Para o segundo semestre, em comemoração à década de existência — que herdou passos dados muito antes de sua criação oficial, a CEETH planeja novas ações formativas e uma missão local para incidir em políticas públicas regionais, além das ações do mês de julho, que já estão em fase de produção.

 

“A nossa Comissão precisa ser mais reconhecida em âmbito nacional pela importância de sua missão”, expressou Dom Plínio. O encontro foi encerrado com o rito de envio e bênçãos, sob a intercessão de Nossa Senhora e de Santa Bakhita, renovando as forças daqueles que escolheram fazer do combate ao tráfico humano uma luta inegociável em defesa da vida.

 

Sobre a mesa, a imagem de Santa Bakhita ao centro zela silenciosamente pela causa. Foto: Cláudia Pereira

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