Monge beneditino, escritor, assessor de movimentos populares e no diálogo entre as religiões.

Casas marcadas pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo - CDHU para serem demolidas na Favela do Moinho no centro da capital paulista. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

O termo pastoral entrou mais profundamente no vocabulário comum da Igreja Católica a partir da segunda metade da década de 1960, tempo no qual o Concílio Vaticano II (de 1962 a 1965) tinha sido concluído e começava a ser posto em prática. 

Já desde a década de 1950, por todo o mundo, mas principalmente nos países pobres, desenvolveram-se movimentos de Ação Católica, que geraram diversas pastorais, cujo objetivo ia além da liturgia e catequese e iniciava uma mística de inserção, seja no meio da juventude (PJ), ou no meio dos lavradores (Pastoral Rural) ou no mundo do trabalho (Pastoral Operária). 

Em 1968, reuniu-se em Medellín, Colômbia, a 2ª conferência geral do episcopado latino-americano, cujo objetivo era aplicar o Concílio à América Latina. De fato, a conferência de Medellín foi muito além disso. Significou o nascimento de uma Igreja com cara latino-americana e que, ao assumir a visão de Igreja e de missão que o Concílio propôs, definiu-a como serviço à libertação de toda humanidade e de cada pessoa humana, em todas as suas dimensões (Med. doc. 5, 15). 

Foi a partir dessa nova perspectiva que surgiram as pastorais que depois, na CNBB, foram chamadas de pastorais sociais (como se toda pastoral da Igreja não devesse ser social). 

 Precisamos compreender a diferença profunda de concepção da missão. A antiga Pastoral Rural era pensada para evangelizar os lavradores, embora já compreendesse a evangelização no sentido mais amplo, que incluía a opção por justiça social e por solidariedade a toda classe de trabalhadores rurais (católicos ou não). Do mesmo modo, pastorais como a pastoral indigenista, a pastoral de juventude e a pastoral operária. Todas visavam fazer do jovem, do indígena e do operário o agente da evangelização de sua classe. Compreendia a evangelização no sentido profundo de acolhida da boa nova do reinado divino e não somente da catolicização, mas era a partir da pertença eclesial, mesmo a mais aberta. 

A diferença entre Pastoral rural e Pastoral da Terra, pastoral indigenista e o Conselho Indigenista Missionário (só para citar duas das mais diversas pastorais sociais) foi que essas últimas, baseadas na proposta de Medellín, assumiram já na década de 1970, aquilo que, tanto tempo depois, o Papa Francisco denominou “Igreja em saída”. Então, passou a se compreender a missão como serviço à causa dos povos indígenas e dos lavradores ou operários, como testemunho do evangelho do projeto divino no mundo, sem mais nenhum traço de confessionalismo. 

É dentro dessa “nova” concepção de missão que se situa a Pastoral da Moradia e Favela e é a partir dessa eclesiologia da Igreja-serviço que convido vocês a delinear algumas características dessa pastoral. 

1 – Pastoral da Moradia a partir de um novo modo da Igreja ser

Nos finais da década de 1970 e início dos anos 1980, “um novo modo da Igreja ser” era como se definiam as comunidades eclesiais de base (CEBs). Como nem toda Igreja se propunha a isso e alguns acusavam as CEBs de quererem formar uma Igreja à parte (a Igreja popular), teólogos começaram a sugerir que se preferisse dizer “um novo modo de ser Igreja” que, de fato, é menos pretensioso do que imaginar que toda a Igreja aceitaria se renovar. Outros retrucavam que era bom não perder a profecia do evangelho que, de fato, pede para a Igreja, ou seja, a comunidade dos discípulos e discípulas de Jesus se renovarem permanentemente. Como escreveu o autor da Carta aos Efésios: “O ser humano novo nunca cessa de se renovar, à imagem daquele que o criou” (Ef 4, 22- 24). Essa renovação deve ser pessoal e interior, mas também comunitária. “Ecclesia reformata semper reformanda” (A Igreja renovada deve sempre renovar-se) diziam antigos teólogos (e Martinho Lutero aplicou à reforma da Igreja Católica, que ele amava e não queria dividi-la). 

Para compreender bem isso, precisamos compreender com mais profundidade o que seria aquilo que poderíamos chamar de “velho modo da Igreja ser” para saber o que caracteriza a mudança para o novo modelo eclesial no qual a Pastoral da Moradia, como todas as pastorais sociais, deve se alicerçar. 

É claro que ninguém de nós precisa de nenhum estudo para reconhecer o tradicionalismo religioso, presente na maioria das paróquias católicas e em muitas comunidades evangélicas e pentecostais. Ele se apresenta através do clericalismo dos padres que se restringem às celebrações pomposas com muitas roupas solenes e com o incentivo à devoções que o Concílio Vaticano II tinha superado. Um catolicismo devocional e tradicionalista voltou com força e não deixa espaço para a formação bíblica na linha do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI), nem para comunidades eclesiais de base e muito menos para a inserção no mundo social e em trabalhos de linha libertadora. Nesse modelo de Igreja e de pastoral, pode até aceitar-se uma pastoral de moradia e de favelas, desde que seja marcada pelo assistencialismo religioso e por ações que sempre destacam mais os/as agentes de pastoral do que as comunidades e pessoas implicadas nessa pastoral. Essas pessoas serão sempre objeto e nunca sujeitos da ação pastoral. 

Isso não se deve a fechamentos dos padres ou mesmo dos bispos em questão. Vem de algo mais profundo: vem daquilo que se chama de “eclesiologia de Cristandade”. Sem compreender a alma dessa Igreja-Cristandade, ficamos condenados a repetir sempre o velho modelo e ficamos impossibilitados de gerar o novo jeito de ser Igreja que é o único possível para uma pastoral da moradia e das favelas em perspectiva libertadora. 

2 – O fantasma atual da Cristandade que assombra o mundo

Em julho de 2025, no 40º Congresso da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (SOTER), realizado na PUC de Minas, em Belo Horizonte, Dom Joaquim Mol, bispo atual da diocese de Santos, e a professora Maria Clara Bingemer, teóloga, professora da PUC- RJ, falaram sobre os 60 anos do Concílio Vaticano II e sua herança para a teologia de nossos dias. Logo no início, o bispo citou o papa Francisco, ao afirmar: “Não estamos mais na cristandade. Não mais!”. E prosseguiu: “A Cristandade terminou, mesmo que alguns insistam, amarga e desnorteadamente, em reavivá-la, como se tenta reanimar um defunto em putrefação.

No mundo civil, entre outros autores, basta lembrar Gianni Vattimo e toda a sua reflexão que aprofunda os elementos e força de um Cristianismo libertado da Cristandade.

A Cristandade como religião civil pode estar superada. No entanto, a lógica e a teologia da Cristandade formam a base, a partir da qual a Igreja Católica e outras Igrejas se constituíram e seguem o seu caminho. A sociedade mudou e as Igrejas foram obrigadas a mudar, mas a cultura de Cristandade continua viva. 

Nessa cultura de Cristandade, continua forte a divisão entre material e espiritual e entre o religioso e o social. Assim sendo, mesmo se as pessoas aceitam a Pastoral da Moradia e das Favelas, ela não é algo prioritário e sim uma ação da caridade eclesiástica. Para muitas dioceses ter uma equipe de pastoral da moradia é um modo de se desvencilhar de um trabalho que eles mesmos não fazem e não querem fazer. A comissão encarregada da pastoral de moradia deveria representar a estrutura eclesial, mas acabam por substituí-la. 

Para que a Pastoral da Moradia possa se espalhar por todo o Brasil, as pessoas que a coordenam e a assessoram têm de entrar nas estruturas clericais, o que, claramente, a limitam e condicionam muito. 

Como denunciar uma sociedade no qual, só para dar um exemplo, conforme um estudo recente, uma cidade como Recife tem em seus bairros centrais, 95 mil imóveis desocupados e abandonados e 75 mil famílias nas ruas (nas mesmas ruas). No entanto, com que força a Pastoral da Moradia pode denunciar isso, se as próprias ordens religiosas, paróquias e dioceses têm casas subutilizadas (casas construídas para mais de cem pessoas, e que, atualmente, hospedam menos de dez religiosos ou religiosas). Há alguns anos, o Papa Francisco propôs que casas paroquiais e conventos europeus pudessem acolher migrantes sem-documentos e pessoas de rua. Em viagens pela Itália, encontrei algumas paróquias e casas religiosas que fizeram isso: abriram alas que não eram mais usadas para abrigar famílias africanas ou asiáticas. Nunca encontrei isso em outros países e não tenho nenhuma notícia de que alguma ordem religiosa ou paróquia esteja acolhendo alguma família ou pessoas sem teto. No sistema de Cristandade, as ordens religiosas, cujos conventos têm ficado vazios, os vendem para se tornarem hotéis de luxo, ou os transformam em casas de encontro e de retiro, com preços bastante caros.  

3 – Elementos de uma pastoral aberta em Igrejas em saída

Como enraizar a Pastoral da Moradia em uma Igreja em saída (não em passeio) se essa quase não existe? 

De fato, precisamos tomar consciência dessa realidade, mas não podemos restringir-nos a isso. Nossa visão de Igreja não é a da Cristandade internacional, da qual dioceses e paróquias são meramente filiais. Por isso, devemos tomar duas posturas complementares: 

1º – Cuidar de não fortalecer ou legitimar estruturas opressivas e autoritárias (clericais).

2º – Ensaiar um novo modelo eclesial em nossas relações e na nossa espiritualidade. A Pastoral é ação, mas ela precisa ser alicerçada em comunidades de vida. Sem essa relação de pertença a comunidades de vida, a Pastoral ficará sem bases. Será como um corpo sem pés. Por isso, a Pastoral da Habitação precisa inserir-se com comunidades eclesiais de base e grupos locais mais abertos (como núcleos de Pastoral da Juventude).

3º – Como todas as pastorais em linha libertadora, a Pastoral da Moradia só se fortalecerá se se enraizar em uma profunda ecumenicidade. 

Atualmente, seja na Igreja Católica, seja em Igrejas evangélicas históricas e também em Igrejas pentecostais, exatamente, por causa do fortalecimento da Cristandade, em 50 anos, as relações ecumênicas já foram mais fortes e vivas do que são agora. Para dar dois exemplos: 

a – No início dos anos 1980, o vice-presidente nacional da Comissão Pastoral da Terra (organismo ligado à CNBB) era o Revdo Inácio Lemke, pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB). Anos depois, a mesma Igreja Luterana criou uma Comissão de Terras e retirou-se da CPT católica. 

b – Ainda no início dos anos 2000, as Igrejas-membros do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) concordaram em fazerem, de cinco em cinco anos, Campanhas da Fraternidade Ecumênicas e a última foi em 2021. Atualmente, a presidência da CNBB tem como decisão não favorecer mais nenhuma campanha da fraternidade ecumênica. 

Mais uma vez, repitamos: o motivo dessa regressão ecumênica é a cultura de Cristandade o seu clericalismo que não é abuso do sistema eclesiástico. É o próprio sistema. 

Diante dessa realidade, o único caminho possível para uma Pastoral da Moradia eficaz é cuidar de duas atitudes espirituais e teológicas: 

a – a laicidade. É preciso desenvolver o que significa isso. Comumente pastoral é a ação do pastor. Em uma Igreja que separa por muros de aço quem é ordenado e quem não é ordenado, a Pastoral continuará sendo exclusivamente de bispos com o auxílio de padres e leigos. Só em uma visão de Igreja que considera a pastoral como ação comunitária e de caráter laical já que o objeto da pastoral é uma situação do mundo (portanto laical), a Pastoral da Moradia precisa aprofundar a fé e a espiritualidade de um modo laical e inserida. 

b – a ecumenicidade. Ecumenicidade significa dar a toda a Pastoral e toda expressão de fé uma dimensão ecumênica. Não adianta a ação ecumênica, se a fé não for pensada de forma ecumênica. Temos de ser ecumênicos em nosso modo de orar e nosso modo de organizar a pastoral, mesmo que sejamos todos e todas católicos. É uma questão teológica e espiritual. 

Nos círculos oficiais de Igreja Católica, continua a chamar de ecumenismo o movimento pela unidade dos cristãos, que ocorre na relação com as outras Igrejas. Chama de diálogo interreligioso o movimento e as iniciativas de aproximação e diálogo com as outras religiões (como entre nós, as religiões negras e indígenas). O problema é que essa divisão não ajuda na América Latina, porque, entre nós, muita gente que é de Candomblé ou de espiritualidades indígenas, sente-se também católicos ou evangélicos. Por isso, em 1992, no primeiro encontro intercontinental da Assembleia do Povo de Deus (APD), o Manifesto lançado pela assembleia propõe o termo Macroecumenismo que engloba todo o caminho ecumênico no caminho do reino, para além das Igrejas e das religiões

Não se trata tanto de relações interreligiosas, mas de uma abertura interior e um pensar a própria pastoral a partir de um modo que inclui a sensibilidade, a cultura e a espiritualidade dos outros grupos cristãos e não cristãos. É essa abertura que permitirá realizar a pastoral com comunidades de periferia e favelas que todas elas são compostas das mais diferentes religiões e também com pessoas que não mantêm identidade religiosa. O melhor modo de fazer isso é através de uma espiritualidade macro-ecumênica. 

No século XX, o teólogo evangélico Paul Tillich escrevia: “O nome da profundidade e do fundo infinito, inesgotável de todo ser é Deus. Esta profundidade é o próprio sentido da palavra Deus. Se vocês virem o que há de mais importante e profundo na cultura e na vida de alguém ou de um povo, vocês estão tocando no mistério da presença de Deus”.  

Como, em 1992, dizia o manifesto do 1o encontro continental da Assembleia do Povo de Deus (APD), em Quito: “Deus é maior do que todas as imagens e falas sobre Deus

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 1. FRANCISCO. A Igreja precisa mudar de mentalidade, caso contrário corre o risco de ficar atrasada 200 anos. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/617244-papa-francisco-esta-se-baseando-no-vaticano-ii-para-mudar-radicalmente-a-igreja-catolica. Acesso em: 28 jul 2025. 

2. GUIMARÃES, Dom Joaquim Mol. Prospectivas abertas pelo pontificado do Papa Francisco. In PERETTI, Clélia e PEREIRA, André Philipe (Organizadores). As religiões frente às crises mundiais contemporâneas: construindo esperanças. São Paulo: SOTER/ Paulinas, 2025, pp. 125- 126. 

3. VATTIMO, Gianni. Después de la Cristiandad. Por un Cristianismo no religioso. Madrid: Ed. Paidós, 2002. Ver também: MORI, Bruno. Per un Cristianesimo senza religione. Verona: Gabrielli Editori, 2022. FANTI, Claudia e VIGIL, José Maria, (org). Oltre le religioni. Verona. Gabrielli Editori, 2018.

4. Ver BARROS, Marcelo. O Sonho da Paz. A unidade nas diferenças: Ecumenismo religioso e o Diálogo entre os povos, Petrópolis: Ed. Vozes, 1996, pp. 148- 150.  

5. PAUL TILLICH, The Schaking of Fundations, p. 63, citado por DIEUDONNÉ DUFRASNE, Célébrer les événements salutaires d’autrefois ou d’aujourd’hui?, in Paroisse et Liturgie 1969/ 3, p. 221.

6. Cf. CASALDÁLIGA, PEDRO, O Macroecumenismo e a proclamacão do Deus da Vida, in TEIXEIRA, FAUSTINO (organizador), O Diálogo inter-religioso como afirmação da vida, São Paulo, Paulinas, 1997, pp. 31 ss.

 

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