A Prelazia de São Félix do Araguaia celebra, neste ano, os 50 anos do martírio do padre João Bosco Penido Burnier, de Rodolfo Lunkenbein e de Simão Bororo. Celebra também a memória de Margarida e Santana, mulheres torturadas na cadeia da delegacia, cujos sofrimentos permanecem gravados na história como denúncia da violência e anúncio da esperança que resiste.
Fazemos memória porque acreditamos que o sangue dos mártires não pertence ao passado. Ele continua fecundando o presente e abrindo caminhos para o Reino de Deus. A memória dos mártires não nos convida à saudade, mas à fidelidade. Não nos permite acomodar-nos, mas nos chama a caminhar.
É nesse espírito que a Prelazia realiza a 8ª Romaria da Caminhada dos Mártires, em Ribeirão Cascalheira (MT), no Santuário dos Mártires, lugar onde a memória se transforma em compromisso, a dor se converte em esperança e a fé se faz história. Ali recordamos o martírio do padre João Bosco Burnier e de tantos homens e mulheres que ofereceram a própria vida para que outros tivessem vida.
Celebramos aqueles que fizeram da existência um dom, assumindo as causas do Reino: a defesa da Casa Comum e da Ecologia Integral; a luta dos povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, guardiões das florestas, das águas e da biodiversidade; o cuidado com as juventudes, as crianças, as mulheres e os adolescentes; a dignidade da população em situação de rua, das pessoas LGBTQIAPN+, das pessoas privadas de liberdade; a solidariedade com as periferias geográficas e existenciais; a incansável defesa dos direitos humanos e de toda vida ameaçada.
O tema desta Romaria, “Testemunhas de Esperança”, é mais do que um lema. É um chamado. Convoca arquidioceses, dioceses, prelazias, comunidades eclesiais de base, pastorais sociotransformadoras, movimentos populares e eclesiais, organizações, entidades e todas as pessoas comprometidas com a justiça, a paz e a vida para fazerem desta Romaria uma grande celebração da memória viva dos Mártires da Caminhada Latino-Americana.
Mas a Romaria não começa quando nos reunimos no Santuário, nem termina quando voltamos para casa. Ela já acontece todos os dias, nas comunidades espalhadas pelo Brasil, pela América Latina e pelo mundo, onde homens e mulheres continuam testemunhando o Evangelho com gestos de solidariedade, resistência e serviço. Cada pessoa que escolhe a verdade em vez da mentira, a justiça em vez da opressão, a partilha em vez da indiferença, continua a caminhada dos mártires.
Celebrar os mártires é renovar a coragem de assumir as mesmas causas pelas quais eles entregaram a vida. É professar uma fé que se faz compromisso histórico. É acreditar que outro mundo é possível porque o Reino de Deus já germina entre nós.
Que esta Romaria fortaleça em todos nós o compromisso com a Civilização do Amor, inspirando-nos a promover o bem viver, o bem conviver e o bem cuidar. Que nos conceda um olhar novo, nascido de um coração apaixonado pelo Evangelho e pelas causas do Reino, para que continuemos sendo, em nosso tempo, testemunhas de esperança e artesãos da paz.
“Enquanto houver uma vida ameaçada, haverá uma causa pela qual vale a pena caminhar. E enquanto houver quem caminhe por amor ao Reino, os mártires continuarão vivos entre nós.”
Este artigo foi editorial da Rede de Notícias da Amazônia em 16 de julho de 2026.