Foto: Cláudia Pereira

A Prelazia de São Félix do Araguaia celebra, neste ano, os 50 anos do martírio do padre João Bosco Penido Burnier, de Rodolfo Lunkenbein e de Simão Bororo. Celebra também a memória de Margarida e Santana, mulheres torturadas na cadeia da delegacia, cujos sofrimentos permanecem gravados na história como denúncia da violência e anúncio da esperança que resiste.

Fazemos memória porque acreditamos que o sangue dos mártires não pertence ao passado. Ele continua fecundando o presente e abrindo caminhos para o Reino de Deus. A memória dos mártires não nos convida à saudade, mas à fidelidade. Não nos permite acomodar-nos, mas nos chama a caminhar.

É nesse espírito que a Prelazia realiza a 8ª Romaria da Caminhada dos Mártires, em Ribeirão Cascalheira (MT), no Santuário dos Mártires, lugar onde a memória se transforma em compromisso, a dor se converte em esperança e a fé se faz história. Ali recordamos o martírio do padre João Bosco Burnier e de tantos homens e mulheres que ofereceram a própria vida para que outros tivessem vida.

Celebramos aqueles que fizeram da existência um dom, assumindo as causas do Reino: a defesa da Casa Comum e da Ecologia Integral; a luta dos povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, guardiões das florestas, das águas e da biodiversidade; o cuidado com as juventudes, as crianças, as mulheres e os adolescentes; a dignidade da população em situação de rua, das pessoas LGBTQIAPN+, das pessoas privadas de liberdade; a solidariedade com as periferias geográficas e existenciais; a incansável defesa dos direitos humanos e de toda vida ameaçada.

O tema desta Romaria, “Testemunhas de Esperança”, é mais do que um lema. É um chamado. Convoca arquidioceses, dioceses, prelazias, comunidades eclesiais de base, pastorais sociotransformadoras, movimentos populares e eclesiais, organizações, entidades e todas as pessoas comprometidas com a justiça, a paz e a vida para fazerem desta Romaria uma grande celebração da memória viva dos Mártires da Caminhada Latino-Americana.

Mas a Romaria não começa quando nos reunimos no Santuário, nem termina quando voltamos para casa. Ela já acontece todos os dias, nas comunidades espalhadas pelo Brasil, pela América Latina e pelo mundo, onde homens e mulheres continuam testemunhando o Evangelho com gestos de solidariedade, resistência e serviço. Cada pessoa que escolhe a verdade em vez da mentira, a justiça em vez da opressão, a partilha em vez da indiferença, continua a caminhada dos mártires.

Celebrar os mártires é renovar a coragem de assumir as mesmas causas pelas quais eles entregaram a vida. É professar uma fé que se faz compromisso histórico. É acreditar que outro mundo é possível porque o Reino de Deus já germina entre nós.

Que esta Romaria fortaleça em todos nós o compromisso com a Civilização do Amor, inspirando-nos a promover o bem viver, o bem conviver e o bem cuidar. Que nos conceda um olhar novo, nascido de um coração apaixonado pelo Evangelho e pelas causas do Reino, para que continuemos sendo, em nosso tempo, testemunhas de esperança e artesãos da paz.

“Enquanto houver uma vida ameaçada, haverá uma causa pela qual vale a pena caminhar. E enquanto houver quem caminhe por amor ao Reino, os mártires continuarão vivos entre nós.”

 

Este artigo foi editorial da Rede de Notícias da Amazônia em 16 de julho de 2026.

Tags:

Relacionados